
As pesquisas científicas sobre primeira infância e as teorias de grandes referências das Ciências da Educação sempre fundamentaram e estruturaram os projetos e a atuação política da OSC Avante, da mesma forma que o incentivo e a promoção de formação contínua para suas equipes internas e externas.
Esse caminhar validado por estudos e diálogos com especialistas e pesquisadores – por meio de seminários, encontros, webinários e aprendizagens organizacionais – além de reverberar na qualidade da realização dos projetos da instituição, tem despertado nos profissionais envolvidos o desejo de aprofundar conhecimentos sobre as diversas dimensões que englobam a primeira infância por meio da pesquisa acadêmica.
Esse despertar resultou na produção de dois projetos aprovados no programa de Mestrado Profissional em Políticas Públicas com ênfase na Primeira Infância, da Fundação Getúlio Vargas (FGV): Cuidado Integral e Trabalho em Rede na Primeira Infância: Desafios e perspectivas para a qualificação profissional, de Helga Muller; e Entre escutas, registros e direitos: gestão pedagógica das práticas sociais de oralidade, leitura e escrita na primeira infância, de Renata Roriz Vieira.
Helga Muller Mengel é articuladora regional do projeto Primeira Infância Cidadã (PiC) em Maruim e Laranjeiras (SE), onde estão sendo implementados Planos Municipais pela Primeira Infância (PMPI), e também atuou na elaboração do Plano Estadual pela Primeira Infância (PEPI-SE), em 2024.
[PiC é um projeto desenvolvido pela OSC Avante, para apoiar governos locais na elaboração e implementação de políticas públicas a partir da sistematização das necessidades da Primeira Infância no território, a fim de garantir a promoção e proteção dos seus direitos. Nas duas últimas edições, o PiC vem sendo realizado em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.]
Renata Roriz é gestora de Educação Infantil e participou do projeto – Tecnologia formação e gestão da Educação Infantil e Tecnologia fortalecimento da relação Escola – Família – Comunidade, desenvolvido em Luziânia (GO), pela OSC Avante, com apoio do Itaú Social.
Em entrevista à Avante – Educação e Mobilização Social, as mestrandas Helga e Renata reconhecem e destacam a contribuição da instituição para suas pesquisas, apresentam seus objetos de investigação e evidenciam a relevância dos estudos para subsidiar a formulação e mobilizar a implementação de políticas públicas eficazes para a primeira infância.
Confira!
OSC Avante: O que vocês pretendem estudar (objeto de pesquisa) e quais os objetivos propostos inicialmente?
Helga Muller: Meu objeto de estudo está ancorado na capacidade da educação permanente — operacionalizada por meio de trilhas formativas em primeira infância — de viabilizar e efetivar a articulação intersetorial. O objetivo geral é analisar os gargalos de implementação das políticas públicas de primeira infância no nível local, propondo estratégias de qualificação profissional que fortaleçam a intersetorialidade e a governança da rede de cuidado integral.
Os objetivos específicos são: identificar os principais desafios de coordenação e cooperação intersetorial enfrentados pelos profissionais de saúde, educação e assistência social no território analisado; diagnosticar as lacunas na formação continuada e nas práticas de educação permanente desses profissionais sob a ótica da intersetorialidade; analisar o papel da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) como ferramenta estratégica de indução de capacidades estatais e qualificação profissional crítica; e desenvolver uma proposta de intervenção voltada à otimização das políticas públicas de atendimento à infância.
Renata Roriz: O meu está relacionado às práticas sociais de oralidade, leitura e escrita na Educação Infantil, com foco nas crianças de 4 e 5 anos. A intenção é compreender como a gestão pedagógica municipal pode reconhecer e acompanhar as aprendizagens e evidências das crianças nessas práticas, fortalecendo o direito à linguagem desde a primeira infância.
A pesquisa parte de uma preocupação muito concreta – nas instituições de Educação Infantil, há muitos registros, observações, relatórios, fotografias e narrativas sobre o cotidiano das crianças, no entanto, nem sempre esses registros se transformam em leitura pedagógica, planejamento intencional ou decisões de gestão. O estudo busca justamente olhar para esse caminho entre aquilo que se observa no cotidiano e aquilo que pode orientar a prática pedagógica e a formação continuada.
OSC Avante: Quais foram os principais desafios do processo de seleção?
Helga Muller: O Mestrado Profissional em Políticas Públicas com Ênfase na Primeira Infância é extremamente instigante, pois coloca em relevo os desafios que já enfrentamos cotidianamente no campo da primeira infância. Buscar possibilidades de resposta para essas questões é exatamente o que me move. Foi uma surpresa imensa e muito feliz ter sido selecionada entre cerca de 8.200 inscrições; ver a proposta validada dessa forma foi incrível e extremamente animador.
Renata Roriz: Foi uma seleção muito exigente, especialmente por saber que eu estava concorrendo com pessoas de várias regiões do Brasil, com trajetórias muito qualificadas e experiências importantes na primeira infância. O maior desafio foi conseguir apresentar, de forma clara e consistente, uma trajetória construída ao longo de muitos anos na Educação Infantil e transformar essa vivência em uma proposta de pesquisa, com sentido, para a gestão pública e para a defesa dos direitos das crianças pequenas.
O que me ajudou foi já ter um pré-projeto amadurecido e uma inquietação muito ligada à minha prática. A proposta nasceu da minha atuação na gestão da Educação Infantil de Luziânia, das formações continuadas, do acompanhamento das escolas e das perguntas que foram surgindo a partir do cotidiano com professoras, crianças, famílias e equipes gestoras.
OSC Avante: O que motivou as escolhas investigativas e porque elas são relevantes para a defesa dos direitos das crianças pequenas?
Helga Muller: A motivação foi e sempre será a possibilidade de dirimir barreiras de acesso que impeçam a criança de ser, saber e realizar o seu pleno potencial, sempre com o devido amparo e proteção no âmbito familiar e social. Vale destacar que a Avante – Educação e Mobilização Social foi uma grande incentivadora para que eu me tornasse uma pessoa com possibilidades nesse mestrado. Como fui e sou articuladora regional, esse olhar atento e sensível para o território vem profundamente dessa trajetória e da proposta da OSC Avante.
Renata Roriz: O que mais me motivou foi uma inquietação que nasceu da própria prática da Rede de Luziânia. Ao longo dos últimos anos, buscamos fortalecer a documentação pedagógica na Educação Infantil, não como um documento burocrático, mas como uma forma de narrar melhor os percursos, as experiências e as aprendizagens das crianças. As formações continuadas, especialmente as vividas com o apoio do Itaú Social – mediada pela OSC Avante e as formações do AlfaMais-Goiás, foram fundamentais para ampliar o olhar da rede sobre a criança, a escuta, os registros, os espaços, as interações e a relação com as famílias.
Esse percurso trouxe muita maturidade para a Educação Infantil de Luziânia e provocou mudanças importantes na forma de pensar a prática pedagógica. Ao mesmo tempo, fomos percebendo que as escolas vivem realidades diferentes, e nem sempre os registros produzidos conseguiam expressar com clareza as aprendizagens das crianças ou orientar novas decisões pedagógicas. Ainda sentimos falta de um documento que ajude a organizar esse olhar, que converse com o cotidiano das professoras e que apoie a leitura das evidências sem engessar a prática. Quando a rede consegue acompanhar melhor essas aprendizagens, ela também consegue planejar com mais efetividade, formar melhor e cuidar para que nenhuma criança fique invisível em seu percurso. Para mim, isso é uma forma de defender os direitos das crianças pequenas e de fortalecer a equidade desde a primeira infância.
OSC Avante: Como essa aprovação impacta a vida profissional de vocês?
Helga Muller: Um mestrado representa sempre a abertura para novos saberes, horizontes e conexões. Creio que será uma experiência enriquecedora poder conviver com profissionais de todas as regiões do Brasil, descobrindo novas possibilidades, encontros e os encantos que podemos construir coletivamente em prol da primeira infância.
Renata Roriz: Essa aprovação me permite aprofundar questões que nasceram da minha prática na Educação Infantil e da minha atuação na gestão pública. O mestrado, realizado pela FGV e financiado pela Fundação Itaú, representa uma oportunidade muito significativa. Para quem vem da educação pública, acessar uma formação dessa dimensão não seria possível sem esse investimento. Por isso, recebo essa oportunidade com muita gratidão e responsabilidade. Vejo esse percurso como uma chance real de fortalecer minha formação e qualificar ainda mais minha atuação em favor das políticas públicas para a primeira infância.
Também tem sido muito rico conviver com profissionais de diferentes áreas e de várias regiões do país. Essas trocas têm ampliado muito o meu olhar e mostrado que os desafios das crianças pequenas precisam ser pensados de forma intersetorial, com diálogo, escuta e compromisso público.
OSC Avante: Vocês conseguem mensurar os impactos da pesquisa para a atuação de vocês em seus territórios?
Helga Muller: Os principais ganhos e impactos da pesquisa para a minha atuação no território residem no fortalecimento da intersetorialidade e na qualificação das práticas cotidianas dos profissionais que atendem a Primeira Infância. Eu percebo que o grande desafio não é apenas gerar diretrizes, mas garantir que elas cheguem de forma viva e efetiva aos territórios e aos serviços. A minha pesquisa, portanto, atua como uma ferramenta para: qualificar as trilhas formativas – compreendendo melhor como os processos de educação permanente alcançam os profissionais na prática; fortalecer a rede de atendimento – integrando de maneira mais fluida as políticas públicas locais com o apoio de instituições fundamentais, como a OSC Avante, que impulsionam esse olhar sensível e contextualizado; e transformar a realidade local – traduzindo o conhecimento acadêmico em melhorias reais para as crianças e famílias do território, consolidando uma atuação cada vez mais integral e integrada.
Renata Roriz: Eu sinto que essa conquista não é só minha. A Educação Infantil de Luziânia, a Rede Municipal e a cidade também ganham, porque tudo que eu aprender nesse percurso quero devolver em forma de contribuição concreta. Quero estudar com seriedade, dar o meu melhor e transformar as aprendizagens do mestrado em ações que fortaleçam a gestão, a formação continuada e as práticas voltadas às crianças pequenas. Tenho muita gratidão por tudo que vivi até aqui e por todo carinho que tenho recebido da minha família, dos meus amigos e da rede municipal de educação de Luziânia.
Ao mesmo tempo, sinto uma responsabilidade muito grande. Essa aprovação me alegra profundamente e renova minha disposição de seguir trabalhando por uma Educação Infantil pública mais forte, sensível, intencional e comprometida com a equidade.


