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Defesa de direitos no território – Baixa do Tubo e Sucuiú

Pipas no céu, contação de histórias nas escolas, brincadeiras ao ar livre e rodas de diálogo. São muitas as formas de chegar em uma comunidade, mas quando o princípio norteador é o respeito ao território, os passos iniciais são dados de mansinho, com escuta dos moradores, aproximação das crianças e jovens e reconhecimento da história local. 

É desta forma que a Avante – Educação e Mobilização Social está chegando nas comunidades da Baixa do Tubo e Sucuiú, localizadas no bairro do Alto do Coqueirinho, em Salvador (BA). O projeto Foco nas Infâncias: defesa de direitos, uma parceria com a Kindernothilfe (KNH), vem marcando sua presença de forma lúdica e dialógica. 

Desde outubro de 2023, estão sendo realizadas diversas ações educativas com crianças e adolescentes de 02 anos a 17 anos, como oficinas de pipa e palhaço, contação de história e ida ao cinema. O diálogo foi estreitado via interlocução com a Escola Municipal Teresa Cristina (Educação Infantil e Ensino Fundamental 1 em tempo integral), a Escola Municipal Anjos de Rua (Educação Infantil e Ensino Fundamental 1) e o Colégio Satélite (Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio). 

Grupo de mulheres

A construção de vínculos com as mulheres adolescentes, jovens, adultas e idosas moradoras das comunidades tem acontecido por meio de rodas de conversa, promovidas semanalmente no espaço de convívio comunitário. O primeiro encontro com elas aconteceu no final de novembro de 2023 numa roda de conversa na Baixa do Tubo. “O grupo era pequeno, mas a vontade de conversar era muito grande: mais de duas horas de diálogo sobre a organização comunitária de mulheres”, conta Christiane Sampaio, coordenadora do Projeto. 

A atividade contou com a presença de lideranças femininas do Movimento Sem Teto da Bahia (MSTB) e da Ocupação Quilombo Paraíso, um outro território de atuação da Avante, também em parceria com a KNH por meio do projeto Estação Subúrbio – nos trilhos dos direitos, que foi coordenado por Ana Marcilio, consultora associada da Avante. 

“Estamos abrindo espaços de interlocução e conexão com parceiros da Avante, como Rita, liderança do MSTB, e estabelecendo diálogo com novos parceiros, que estão chegando para somar conosco neste projeto, como o Núcleo de Animação da Escola de Belas Artes da UFBA (Mirá). Tem sido um trabalho de aprendizado mútuo, de construção de relações de confiança”, avalia Christiane.

Rita Ferreira foi uma das lideranças presentes nas rodas. Moradora e uma das lideranças da Ocupação Quilombo do Paraíso, situada no Subúrbio Ferroviário de Salvador, ela iniciou na luta por moradia em 2009. Como mulher negra, conhece de perto a importância de uma casa própria para as mulheres das comunidades populares que, na maioria das vezes, são chefes de família. Para a coordenadora do Projeto, foi um momento importante de acolhimento. 

Diálogo com a escola 

O portão de entrada nas comunidades foi o Colégio Estadual Satélite, onde foi realizada a primeira contação de histórias em meados de outubro de 2023. A ação foi seguida de outras atividades envolvendo três instituições públicas com as quais um diálogo está em curso em prol da implementação de um projeto de enfrentamento às violências comunitárias que afetam crianças e adolescentes.

Na Escola Municipal Teresa Cristina, o contador de histórias, Mário Omar (@mariosankofa), realizou uma contação quase que de pé de ouvido, explorando os silêncios, a troca de olhares, a construção de uma conexão mais profunda com as crianças, que acompanharam atentas a história.

Mário, que também é brincante, trabalhou com pipas para o processo de aproximação com as crianças da Baixa do Tubo e de Sucuiú. Ele disse que foi um momento bonito, observá-las colorindo o céu, sorridentes, com as pipas produzidas durante a oficina, realizada no campo de futebol do Sucuiú.

Durante a atividade, o sr. Autamir, pescador e morador da comunidade, se somou à turma. “Foi dado a ele acesso afetivo para trocas de saberes com as crianças, além de espaço de fala para contar a sua história e a história de como aprendeu a fazer pipas”, relatou Mário Omar.

O educador brincante Igor Sant’Anna, que está atuando no Projeto, conta que chamou muito sua atenção a história da construção do Centro Comunitário e da Escola Municipal Anjos de Rua, que antes era uma escola comunitária. Em diálogo com moradores mais antigos, Igor descobriu que uma mulher canadense (nome ainda não identificado) “fez uma mobilização da comunidade local para tirar, como ela dizia, ‘esses anjos da rua’, que eram crianças. Então, se produziu pequenos anjos de gesso, que eram vendidos e ela também exportava e arrecadava dinheiro para fazer o centro comunitário e a escola comunitária”.

À medida que vai se fazendo presente nas dinâmicas das comunidades, a equipe da Avante vai desvelando suas histórias e as personagens que protagonizam esse cotidiano e cultivam a memória coletiva. Essas histórias também são compartilhadas pelas crianças e jovens. 

Clique aqui para assistir ao vídeo de Rita Ferreita

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Foco nas Infâncias

O objetivo central do projeto é colaborar para que crianças e adolescentes se desenvolvam em um ambiente familiar e comunitário mais protetivos, com mais respeito às diferenças, especialmente de raça e gênero. 

A etapa de construção de vínculos territoriais também terá a realização de mapeamento de ações desenvolvidas pelas escolas em relação à temática educação para relações étnico-raciais; e das ações da rede local de atenção a partir do que ela desenvolve para prevenção de violências contra crianças e adolescentes.  

Durante a Pré-Jornada Pedagógica da EM Teresa Cristina, realizada no final de dezembro, a abertura contou com intervenção artística e fala sobre a importância do cuidado com as crianças na relação entre  cuidadores e família.  Neste momento também foi feita a distribuição da publicação Educar sem violência, cartas para sentir, pensar  e aprender. 

Clique aqui para acessar a publicação

O diálogo para construção de vínculos e estabelecer relações de confiança também teve início na Escola Municipal Anjos de Rua. De forma lúdica, uma contação de histórias foi realizada por Omar e mobilizou as crianças, fortalecendo os laços com a comunidade.

“O momento de contação de histórias foi muito importante para as crianças. Foi um momento de expressão de muitas emoções, uma experiência sensorial muito legal. Gostei do Mário partilhar suas memórias e experiências. Foi muito gratificante para eles e para mim também”, contou Djane Alves de Melo, professora do Ensino Fundamental da EM Anjos de Rua.

Uma de um intercâmbio com o Mirá, o Projeto proporcionou a 60 estudantes do 5º ano do Ensino Fundamental, que estão se despedindo da Anjos de Rua, a oportunidade de entrar pela primeira vez no campus da Universidade e conhecer o circuito Sala de Arte de Cinema de Salvador. Foram exibidos os filmes Pequenos Narradores, Quintal, Tom Tambori e As Aventuras de Amí, produções audiovisuais feitas na Bahia, que colaboram para que as crianças possam ressignificar suas autopercepções do ponto de vista étnico-racial e de gênero.

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