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Avante inicia celebração dos 30 anos com webinário sobre o Brincar e a cultura do escrito

As comemorações do 30° aniversário da Avante começaram. A largada foi dada no último 13 de maio com o Webinário “Brinquedos, brincadeiras e a cultura do escrito na Educação Infantil”. 

O evento, que conflui com as atividades do Dia Nacional do Brincar, celebrado em 28 de maio, promoveu um debate profundo com importantes referências da área: Maria Thereza Marcilio – consultora associada da Avante – Educação e Mobilização Social, mestra em Educação pela Harvard University, e Giovana Zen, doutora em Educação e presidente da Rede Latino-Americana de Alfabetização; sob mediação de Kelly Cristina Santos, especialista em Educação Infantil da Avante.

A primeira convidada, Maria Thereza, iniciou sua participação destacando o desafio de substituir Rita Coelho, “um baluarte da Educação Infantil”, que prestigiaria o evento, mas foi impossibilitada de comparecer. “A gente sente muito que Rita não esteja conosco, desejamos a ela uma recuperação rápida. Queremos esse baluarte muito forte”, afirmou.

Maria Thereza abriu a mesa com uma apresentação contundente sobre o lugar do Brincar na Educação Infantil – como eixo estruturante do currículo e direito das crianças. A especialista trouxe dois expoentes das infâncias para fundamentar a sua argumentação – Emmie Pikler e Lídia Hortélio. 

Após ressaltar a essencialidade do Brincar, Maria Thereza problematizou a prática cultural que concebe o Brincar como uma atividade pedagógica à parte ou destinada aos intervalos de estudo. “A gente relativiza o lugar da brincadeira como se fosse algo menor ou menos importante na vida das crianças”.

Esses equívocos, segundo Maria Thereza, desconsideram o brincar como comportamento natural do ser humano. “O brincar é a primeira manifestação do bebê, é o que permite à criança explorar o mundo”, explicou.

A despeito de todos os equívocos, Maria Thereza apresentou os bons resultados da trajetória de luta em defesa do Brincar como direito e, por isso mesmo, necessário à Educação, entre eles, o reconhecimento e inserção do Brincar em marcos legais importantes, a exemplo das Diretrizes Nacionais Curriculares da Educação Infantil. “A brincadeira é intrínseca à criança e é um direito. Por ser direito, tem que ser preservada e trazida para a Educação”, afirmou.

Ao relacionar o Brincar com a cultura do escrito, Maria Thereza problematizou questionamentos errôneos e recorrentes entre pais e responsáveis, como: “as crianças vão à escola só para brincar?”. A partir daí, explicou de forma clara que as brincadeiras podem englobar todo e qualquer conteúdo. 

A redução progressiva do Brincar ao longo das etapas e séries escolares até sua interrupção completa no Ensino Fundamental foi um ponto de preocupação trazido à mesa por Maria Thereza. Segundo ela, as crianças vão sendo inseridas gradativamente em gavetas que tendem a padronizar e homogeneizar comportamentos.

Ao alcançar esse ponto da discussão, Maria Thereza fez uma conexão provocativa para introduzir Giovana Zen na discussão.

“Como sair dessas gavetas e por quê elas existem? Como transformar essa ruptura numa continuidade que respeite os sujeitos, o acesso ao conhecimento e o próprio conhecimento do estudante?” Com essas perguntas, Maria Thereza convocou Giovana Zen ao diálogo.

Giovana brincou com a complexidade dos questionamentos e, em seguida, celebrou o aniversário da Avante. “É uma honra estar aqui numa celebração dos 30 anos da Avante. Uma instituição que tem uma contribuição histórica para a Educação Infantil brasileira e na defesa do direito das crianças a uma educação comprometida com a infância. Também quero registrar minha admiração por Maria Thereza Marcilio e por Rita Coelho, dois baluartes da luta pelo direito à infância no nosso país”, ressaltou.

Ao introduzir o tema do Brincar e sua relação com a cultura do escrito na transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, Giovana ancorou sua fala nas investigações do seu orientando, Noé Matias de Souza – pesquisador que se dedica a compreender esse processo de transição – período que eles metaforizaram como uma gangorra.

A pesquisadora ressaltou que as assimetrias dessa gangorra não são produzidas pelas crianças, mas pelas disputas epistêmicas e políticas em torno da questão. De acordo com ela, o problema não está na transição, mas no abismo construído entre os dois segmentos e nos projetos de infância criados dentro da própria Educação Básica.

No chat do evento, os comentários reforçaram o debate. Clara Coelho ressaltou que “essa fragmentação recai sobre os “colos” das professoras” e afirmou que “a solução dessa equação é complexa!”. Andrea Borges seguiu a discussão: “É isso! Alfabetizar significa ampliar possibilidades e não interromper as experiências das crianças”.

Giovana argumentou que os desequilíbrios não existem por desconhecimento pedagógico das professoras, mas pela “existência de uma estrutura educacional sustentada por essas disputas epistêmicas que ultrapassam a ação individual de cada professor”.

Conforme a pesquisadora, incidem sobre as professoras o peso dos documentos oficiais – que afirmam a centralidade das brincadeiras, das interações, das múltiplas linguagens – e a pressão para preparar as crianças para as inúmeras avaliações externas.

Além disso, nessa gangorra concorrem, de um lado, o compromisso ético de preservar a infância e, do outro, a centralidade do desempenho escolar. Nas palavras de Giovana, “o Brincar deixa de ser uma experiência das crianças e passa a ser uma ferramenta pedagógica do professor”. 

Enquanto de um lado da gangorra está a alfabetização, entendida como apropriação do sistema de escrita; do outro está o letramento, entendido como participação nas práticas sociais de leitura e de escrita. 

Giovana acredita que a apropriação das culturas do escrito não se fragmenta em dois lados da gangorra, como se a alfabetização e o letramento fossem forças em disputa. Para ela, o equilíbrio está em compreender que a complexidade da alfabetização reside na articulação entre dimensões inseparáveis da mesma experiência cultural com a escrita. 

Para quem se interessa pela Educação Infantil e pelo Ensino Fundamental, o webinário traz um relevante aprofundamento sobre o lugar do Brincar na transição de uma etapa para outra, com destaque importante para as articulações com a alfabetização e as culturas do escrito.

Maria Thereza agradeceu à participação de Giovana Zen e destacou a honra de ter a pesquisadora à frente da Redalf e em diálogo contínuo com a Avante. “Que privilégio é ter você e ter você tão perto”, declarou.O webinário está disponível na íntegra no canal da Avante, acesse: Brinquedos e brincadeira e a cultura do escrito na Educação Infantil – YouTube

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