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“Se a escola não é empoderadora, ela não é emancipatória, ela é opressora”

Esta frase contundente é da advogada e integrante-fundadora da Comissão Antirracista do Colégio Equipe, Evie Santiago. Mãe de uma adolescente aluna da instituição, que fica na cidade de São Paulo, Evie é tão implicada com a promoção de uma educação antirracista que, ao conversarmos com ela, parece que estamos diante de uma profissional da educação, mas Evie faz questão de dizer que é uma mãe preocupada com a formação da filha e com a promoção de uma educação que problematize a visão eurocêntrica e que, por outro lado, se referencie na história e na cultura afro-brasileira e africana, promovendo o respeito às diversidades, o reconhecimento dos múltiplos saberes ancestrais.

Evie defende que as escolas devem investir no letramento racial das/os professoras/es e na implementação da Lei 10.639, que prevê a obrigatoriedade do estudo da história e da cultura afro-brasileira e africana. “Por que a lei que impõe o Novo Ensino Médio está sendo praticada com investimentos financeiros e a Lei 10.639 não é praticada?  É tão Lei quanto”, questiona. 

Outro ponto nevrálgico que ela aponta na entrevista diz respeito à dificuldade de as escolas lidarem com o tema da violência dentro dos seus muros. “Se a escola não entende que é reflexo da sociedade, por sua vez, ela vai reproduzir a violência de alguma forma, seja porque ela se omite, seja porque ela estimula. Quando você tem essa consciência, você começa a tratar os casos como evidências de um problema estrutural e, ao invés de tratar no pontual, você vai educar, colocar no currículo”.

Essa revisão curricular deve iniciar na Educação Infantil, alerta Evie, de modo a oferecer às crianças a possibilidade de lerem o mundo, com toda a sua diversidade, sob pena de  “estarmos forjando e ajudando a forjar pessoas com dificuldade para exercício da cidadania”. Confira abaixo a entrevista completa. 

Avante – Na sua perspectiva, como uma educação para a diversidade, especialmente uma educação antirracista, pode contribuir para uma escola mais acolhedora e segura?

Evie Santiago – Eu acho que quando a gente percebe que, na nossa história, tudo aquilo que nos constitui como ser humano, é objeto do conteúdo e da presença na educação, vamos humanizando as pessoas. Quebra aquele paradigma do outro. A violência vem da “outrificação”, o outro que está distante de mim, por isso ele pode ser objeto de toda a sorte de medos e preconceitos. Quando eu trago esse outro para dentro da minha realidade, para dentro da escola, esse outro representa o todos/as na educação. 

Mas, é preciso falar também da revisão do currículo, para que ele reflita essa diversidade. Eu não consigo deixar de falar dele. Eu acho que o currículo é branco, eurocêntrico, e esse currículo branco e eurocêntrico, representa e reforça essa violência. Então, eu acho que essa diversidade contribui para a redução da violência, se ela estiver refletida no acesso de todos/as à educação de qualidade. E que essa educação seja de qualidade mesmo, porque uma educação parcial e limitada, não é de qualidade. 

Você pode colocar a criança na escola particular mais cara, mas se ela só acessa um lado da história, ela não é de qualidade, ela é opressora, ela perpetua uma opressão e ela naturaliza a violência.

Avante – Uma pesquisa recente do Instituto Alana, junto com o Geledés, traz que apenas 29% dos municípios brasileiros realizaram ações consistentes para implementação da Lei 10.639. Estamos distantes de garantir que a Lei de fato se cumpra em sala de aula. O que você atribui a essa morosidade na implementação? 

Evie Santiago –  Eu vou ser bem direta, acredito que as instituições que decidem e que têm o poder para fazer mudanças são instituições embranquecidas. Quando se fala da Lei 10.639 isso pode não significar nada para uma pessoa branca, sem letramento racial e que não foi educada a partir dessa perspectiva,  pois muitas vezes nem têm contato com pessoas negras no seu dia a dia. 

É difícil mobilizar as estruturas de poder para que ela saia da teoria, que é a Lei. A Lei só existe teoricamente, ela só muda a realidade se ela for colocada em prática. Então, creio que o legislativo fez o seu papel, com ressalvas, mas para um primeiro momento, temos uma Lei que é fruto da luta dos movimentos negros, indígenas, etc. Ela precisa sair do papel e ir para a realidade porque o atraso se dá pelo embranquecimento das instituições que pensam a educação nesse país.

Então, eu acho que, dentro da escola, a Lei 10.639 não foi colocada em prática, não tem sido como a gente gostaria, porque as instituições são brancas e não representam o Brasil. Essas instituições não sabem, por exemplo, qual é a representatividade na educação de um terreiro de candomblé. Acham que é só uma religião ou só uma manifestação religiosa, mas na verdade, se a gente fosse educado pela Lei 10.639, a gente saberia que um terreiro de candomblé é um repositório de cultura, de cosmovisão, de organização política e isso poderia ser muito bem incluído dentro do currículo. Mas, a gente não coloca porque a gente não sabe. 

Eu falo isso porque eu sou baiana e eu também não soube. Eu fui educada dentro de uma escola religiosa católica e branca. Na Bahia, a gente tem mais de 500 terreiros que resistiram à escravidão, que mantêm a língua, que mantêm as tradições. A comida que comemos é de terreiro, o acarajé é de terreiro… E a gente não leva isso para escola. A criança tem aula de culinária, algumas escolas têm gastronomia, e ela aprende a fazer uma massa italiana. 

Avante – Quais estratégias os gestores, professores e coordenadores pedagógicos podem empreender para construir uma educação para a diversidade dentro do espaço escolar?

Evie SantiagoCada gestor, cada pessoa que atua com educação, tanto dentro quanto fora da escola e das instituições que lidam e que influenciam as escolas, precisa se entender como co-autor da educação promovida naquele espaço. Eu digo co-autor porque os alunos também são autores da educação que promovem. Eles também têm bagagem. É uma visão bem eurocêntrica a do professor detentor e responsável por passar o conteúdo e os alunos apenas assistir.

Deve haver uma dinâmica que promova uma troca, o que se estabelece com certo nível de quebra de hierarquia. Se o professor for mais permeável àquilo que é a realidade dos alunos, e se esses alunos forem diversos, ele já obtém desses alunos a contribuição para o conteúdo. Então, se eu tenho aluno negro, PCD, LGBT, indígena e o professor permite que eles tragam um pouco da sua realidade para dentro da escola, que protagonizem essa troca dentro da escola, o professor já tem material para trabalhar e para ampliar.

O professor não é o detentor de todo saber. Ele precisa saber que há conhecimentos no mundo que podem se transpor para dentro da escola. Se eu fosse professora, por exemplo, eu faria todo tipo de atividade, todo tipo de exercício, para trazer os atores sociais que representam essa diversidade. Se vou falar de matemática, tenho primeiro que pensar que matemática estou trazendo, de onde vem essa referência. Vem da Europa? De África? Quantas referências existem para tratar do mesmo assunto? Vamos diversificar essas referências, buscar outros saberes.

Por exemplo, falar de ciência, é falar de ervas, da medicina que curou antes do SUS, a medicina que curou todas as pessoas negras do Brasil. Não era medicina formal porque não tinham acesso a médico. O SUS universalizou, mas, antes, quem curava? Eram as mulheres que sabiam manipular as ervas. Tudo isso pode entrar num contexto de uma aula de biologia e eu posso convidar uma pessoa sapiente. Pois a educação não está só nos escritos. A oralidade é uma fonte de conhecimento presente na cultura indígena e afro-brasileira. Na Bahia, temos uma quantidade de pessoas sábias com histórias para contar, saberes para compartilhar e, às vezes, os professores, principalmente das escolas particulares, estão encastelados buscando referências de fora. Então, eu acho que os professores como co-autores da educação, junto com os alunos, podem trazer e ampliar esse olhar. 

Independente do que a escola tem como política, a gente entende que, muitas vezes, a estrutura da gestão, às vezes, é mais engessada, mas, ao mesmo tempo, o professor tem um pouco de autonomia e pode ser sensibilizado a isso. É por isso que eu acredito que as instituições que tiverem qualquer sensibilidade em relação à diversidade, elas precisam promover o letramento de modo sistemático para todo mundo dentro da escola. 

As instituições precisam investir em letramento racial para os professores. Hoje, vemos crianças negras, indígenas, PCD e LGBT sofrendo opressão e violência. A gente começou a falar de violência, então, acho que se a gente traz letramento para os professores e para comunidade escolar é um bom caminho.

Avante – Nessa questão da relação entre as violências e o racismo que estão na sociedade e vão se refletir na escola, como você acha que diante desse cenário as/os professoras/es e a escola podem contribuir para o enfrentamento dessas violências? 

Evie Santiago – Olha, eu acho que as escolas não querem enfrentar o problema, então, o que acontece: atos de violência são tratados como atos isolados e não como sintoma de um problema. Vai haver um caso de racismo na sala A, na sala B, na sala C, um caso de violência contra jovens LGBT nas salas A, B e C. E cada ato desse será tratado como um caso específico, que se tenta solucionar através da punição, através da atitude específica em relação aos alunos envolvidos. 

As escolas têm dificuldade de entender isso como sintoma. Por quê? Porque elas não se veem como parte de uma sociedade violenta, sob o ponto de vista da aceitação. Ela não se vê como reflexo dessa violência, ela acha que aquilo ali é um problema daquele caso específico. Não é. Se você entende que a escola é reflexo da sociedade, por sua vez, ela vai reproduzir a violência de alguma forma, seja porque ela se omite, seja porque ela estimula. Quando você tem essa consciência, você começa a tratar os casos como evidências de um problema estrutural e, ao invés de tratar no pontual, você vai educar, colocar no currículo.

Se a escola não é empoderadora, ela não é emancipatória, ela é opressora. Na omissão, se você não fizer nada contra o racismo, você vai reproduzir o racismo. Então, a escola precisa ter consciência de que ela é parte de uma estrutura racista, que ela só muda o racismo e as intolerâncias agindo deliberadamente contra. Para agir intencionalmente contra é preciso revisar o currículo, incluir professores negros, indígenas, LGBTQIA+ dentro da sua escola, mas não digo isoladamente, eu digo de modo a tentar refletir o percentual social de alunos diversos que representam a sociedade. 

Eu sou uma entusiasta da ideia de que a escola precisa investir, precisa agir. “Ai…. mas a gente não tem dinheiro”… Mas, quando há uma mudança no currículo, como o Novo Ensino Médio, você não tem que investir para fazer valer aquilo? Por que a lei que impõe o Novo Ensino Médio está sendo praticada com investimentos financeiros e a Lei 10.639 não?  É tão Lei quanto, é tão normal quanto, mas eu sinto que há uma má vontade das escolas, das instituições, de investir dinheiro nisso. Por quê? Porque é natural que o negro sofra, que o índio sofra. É natural, a sociedade naturalizou essa violência, agora, não é natural quando a criança branca sofre, quando a criança branca sai sem ser alfabetizada, isso não é. 

Avante – Qual a importância de iniciar esse processo na Educação Infantil? Que sugestões você dá para quem está se confrontando com esses questionamentos?

Evie Santiago – Eu trago duas reflexões. Uma: a Lei 10.639 é uma obrigação legal que precisa ser cumprida do começo ao fim. Desde o começo, você precisa ter um olhar para a implementação da Lei. Toda criança tem direito a uma educação não colonial, é um direito de todas. Se você tem criança, ela precisa ler o mundo. Você ensina a criança a ler o mundo, a se apropriar, a trocar com o mundo, a fazer leituras. 

Se você não trouxer elementos para que ela entenda essa diversidade dentro do currículo, se a gente não traz o mundo para dentro da escola, com a sua diversidade nas referências, a gente está forjando e ajudando a forjar pessoas com dificuldade para exercício da cidadania. Isso é desde o começo, garantindo representatividade nas bonecas, nos desenhos, na dança, na roda.

A criança precisa entender, quando ela senta em roda e círculo, que essa é uma prática decolonial, porque se você for pensar na educação europeia ninguém senta em círculo, todo mundo senta nas carteiras. Hoje em dia, claro, isso mudou um pouco, mas a gente traz essa bagagem. Só que a gente tem aqui exemplos de uma educação circular, de contar as histórias. Poxa, você conta a história da Branca de Neve e não vai contar a história de um Rei Africano? Uma Rainha Africana… Por que não, gente? Entendeu?

Se você imprime esforços para trazer a educação europeia para dentro da sua realidade, imprima o mesmo esforço para justificar isso, e não de forma folclórica, que é uma tendência dentro da Educação Infantil. A criança entende muito e nessa idade já protagoniza atos racistas e também antirracistas. Há casos em que fazem a leitura do mundo muito perspicaz, como a criança que fala: “mãe, por que não tem negro aqui na minha escola de natação?”. Bem, se a criança consegue ler isso e fazer a pergunta: “mãe, por que só os negros dormem na rua?”, pergunta muito comum de ser feita, como é que você responde isso?

Sinceramente, eu acho até mais fácil trazer esses temas porque as crianças menores têm uma plasticidade. O livro do Krenak, O Futuro Ancestral, traz uma perspectiva sobre isso. Ele narra situações onde a criança indígena é lida pela comunidade, não como uma folha em branco, muito pelo contrário, a criança é dotada de um saber que vem da curiosidade, vem do olhar perplexo, da experimentação que a criança consegue fazer sem as amarras e os grilhões que a gente vai colocando em nós mesmos ao longo da vida. 

Então, a criança é fonte de muita coisa. Se você coloca tudo de forma mesquinha, pequena, você está reduzindo o universo da criança. No universo da criança poderia, perfeitamente, caber tudo, mas a gente, com essa visão limitada, muito eurocentrada, muito fechada, muito rígida, a gente perde e faz com que a criança se perca, que ela vá se adaptando a uma sociedade que é adoecida. Afinal de contas, a gente está aqui falando de violência na escola, uma coisa que é contraditória pelo conceito.

Idealmente, não teríamos nem essas reflexões sobre a violência na escola, mas a gente está falando porque mostra que a sociedade está adoecendo. Eu acho que a luta antirracista vem fazer uma convocação para refletir, para mudar através de ações. Não através de teoria, nada disso muda com conversa. Por isso que a gente teve lá na escola, com a Comissão Antirracista do Equipe, para sair do discurso e dizer: “e aí, vamos lá? Vamos fazer alguma coisa na prática?”. E com isso a gente conseguiu várias coisas, estamos na luta ainda. A comissão ainda luta muito, mas conseguimos sensibilizar uma instituição branca em São Paulo para poder olhar para a obrigação de dar acesso a todos. É uma obrigação, a democracia não se faz excluindo 56% de pessoas negras.

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