Avante

Pertencer para aprender: representatividade cigana e educação escolar

“Quando criança, eu me sentia muito inquieta, porque eu chegava na escola e não via nos livros a história e imagens dos povos ciganos, por isso escolhi a pedagogia e foi também o que me fez ser escritora”. 

O relato de Marcilânia Alcântara, cigana de etnia Calon, expõe a realidade de milhares de crianças ciganas brasileiras. A professora, escritora e artista, integrante da maior comunidade cigana fixada da América Latina, compartilhou com a Avante – Educação e Mobilização Social a importância da representatividade na infância e da Educação decolonial para a desconstrução de estigmas sociais cristalizados. 

A fim de espalhar a cultura dos povos ciganos a todas as crianças brasileiras e reafirmar o senso de pertença nos pequenos Calons, Rons e Sintis, Marcilânia publicou, em 2024, o seu primeiro livro Marcy e as castanholas mágicas, pela Arribaçã Editora.

Marcilânia apresenta com paixão o seu povo e a sua cultura. Membro da comunidade Pedro Maio, no município de Sousa (Paraíba), a professora desenvolveu um projeto sobre povos ciganos que mobilizou toda a escola e tornou-se importante referência para a Secretaria de Educação Municipal.

Contadora de histórias nata, como se identifica, Marcilânia nos falou sobre as tradições preservadas em sua comunidade, sobre a admiração que cultiva pela avó, seu maior exemplo de mulher cigana, e sobre o seu amor pelas artes, sobretudo, a dança.

É impossível ouvi-la e não desejar conhecer o rancho onde o seu povo habita ou não se imaginar numa das rodas de conversa e de viola que as famílias fazem no terreiro, em frente às casas de alvenaria, para preservar a Chibi (língua Calon), dançar e cantar sob a lua.

Confira!

Avante: Como foi para você a questão da representatividade em sua experiência escolar?

Marcilânia: O livro foi justamente por essa lacuna. Quando criança, eu me sentia muito inquieta, porque eu chegava na escola e não via nos livros a história e imagens dos povos ciganos. Na Educação Infantil, há atividades sobre identidade para dizer com quem você se parece e eu não me parecia com ninguém daquelas atividades. Isso me inquietava. Por isso, escolhi a pedagogia e foi também o que me fez ser escritora. 

Nossa comunidade foi nômade por muito tempo. Hoje, a gente é fixado há mais de 40 anos no município de Sousa. Dentro da comunidade, no rancho, a gente escuta muitas histórias. Minha avó era uma contadora de história nata, meu pai também contava muitas histórias, eu sempre ouvia muitas histórias e achava super interessante. E eu não via nada disso no universo da escola. Essa lacuna que existe com a literatura cigana me levou a escrever as nossas histórias e ter nos livros personagens que as crianças se identificassem. 

Eu sou professora da rede pública do município. Por muitas vezes, a evasão escolar cigana é colocada como algo natural, um estereótipo de que o cigano não gosta de estudar. Quando, na verdade, não se busca saber por que as crianças ciganas abandonam a escola. Na maioria dos casos, a resposta é o não pertencimento no espaço escolar. Muitas vezes eu pensei, “esse mundo aqui não é meu, porque eu não me identificava com o universo da escola”. Talvez hoje eu pudesse fazer parte dos índices de criança cigana que abandonou a escola por não se sentir privilegiada naquele espaço. 

Avante: Como você desenvolve a sua ciganidade na escola?

Marcilânia: Eu estou num espaço privilegiado, porque sou professora em uma escola que atende [também] crianças ciganas. Na escola, eu trabalho com diversos projetos visando à história dos povos ciganos, porque eu sinto falta desse conteúdo na grade curricular. A gente sabe que a escola ainda é elitista e serve, principalmente, àquela parcela que se diz majoritária e superior.

Eu trabalho com um projeto que intitulei “As diversas cores da minha cultura”. É um trabalho com contos e poemas ciganos, artistas e personalidades ciganas, para que as crianças ciganas possam ter acesso à sua história dentro da escola. 

As crianças que estão comigo na comunidade também estão comigo na escola, e isso é de fundamental importância, porque eu acabo sendo um exemplo positivo para elas, de alguém que saiu da comunidade e adentrou outro espaço sem perder a sua ciganidade. 

Avante: Essa escola é parte de uma política pública para os povos ciganos de Sousa ou uma escola que as crianças acessam por estar próxima à comunidade?

Marcilânia: É uma escola que atende ciganos e não ciganos, ela atende ao nosso bairro, que está próximo, e aos bairros adjacentes. Mas acho muito legal, porque as crianças ciganas que vão para a escola têm esse senso de pertencimento. Além de mim, outras pessoas da comunidade trabalham no ambiente escolar. Inclusive, quando chegam na escola, as crianças já são recebidas por uma pessoa cigana, o porteiro. Para as crianças que não são ciganas, existe a oportunidade de conhecer o que é o universo cigano, porque a gente sabe que o preconceito e a discriminação são parte do não conhecimento, da reprodução de estigmas ao longo da história. 

Eu costumo dizer que aquilo que a professora da Educação Infantil diz ecoa na nossa cabeça pelo resto da vida. Então, como a escola atende da Educação Infantil até o quinto ano, a gente trabalha com as crianças desde a primeira infância. Então, é aí que a gente constrói mesmo os cidadãos.

Por isso que eu acho muito bacana quando falo do meu trabalho dentro da escola e do trabalho da escola em si, porque as pessoas que não são ciganas e fazem parte do corpo docente e da gestão abraçaram a causa. 

Avante: Então, essa preocupação de trabalhar elementos da cultura cigana com as crianças é uma iniciativa também da escola? 

Marcilânia: Inicialmente, partiu de uma preocupação minha. A gente via outras culturas, mas nunca se falava sobre povos ciganos. Esporadicamente, falava-se no folclore. Mas isso dá a ideia de que o cigano é mito. Então, isso me inquietava bastante.

Ao entrar no curso de pedagogia… Eu costumo dizer que Deus plantou essa missão no meu coração. Eu sempre pensei em escrever as histórias que minha avó me contava, porque achava que outras crianças deveriam ter a oportunidade de conhecê-las. Minha iniciativa se deu quando passei no concurso, em 2015. Eu já trabalhava na escola, em outro segmento, mas não era professora ainda.

Em 2015, eu passei no concurso e comecei com a Educação Infantil. Aí, eu parti dessa ideia sobre os ecos da nossa primeira professora soarem na nossa cabeça para sempre, porque apesar de ter entrado na escola um pouquinho mais velha, o que as minhas professoras da primeira infância me diziam na época, eu ainda reproduzo hoje. Então, essa foi minha direção com a Educação Infantil. 

A escola inteira tem acesso ao projeto, porque durante os planejamentos, outros professores compreendem e replicam em suas salas. A escola e a Secretaria de Educação viram e abraçaram a ideia. Tanto é que os textos e o projeto que eu trabalho foram reproduzidos em outras escolas, porque esse era o intuito também: trabalhar em escolas que não têm ciganos, para desmistificar e ensinar para as crianças quem são realmente os povos ciganos, para acabar com os preconceitos. 

O município de Souza vem avançando bastante na Educação. Tanto é que a gente conseguiu reduzir o número de crianças em abandono escolar, porque a gente faz busca ativa. Essa questão de trabalhar os conteúdos relacionados à nossa história na escola, eu acredito que também auxilia as crianças a se sentirem valorizadas e com maior vontade de estar na escola.

Trazer exemplos positivos de pessoas ciganas para o ambiente escolar é muito importante, porque a palavra ensina, mas o exemplo tem um peso maior. Quando eles veem outras pessoas da comunidade, que ocuparam novos espaços, conseguirem progredir ou ascender socialmente por meio da Educação, contribui para que eles permaneçam na escola. 

Avante: Esses jovens que estão nessa escola, de alguma forma, são maioria. Estar nessa escola onde ele é maioria o torna diferente quando se torna minoria lá fora?

Marcilânia: Minha escola é municipal, as crianças ficam do Infantil ao quinto ano. Dentro da outra comunidade, há uma escola do Estado. Então, as crianças ciganas da minha comunidade, e muitas outras que não são ciganas, acabam migrando para essa escola, que vai do sexto ao ensino médio.

Por estar no território cigano, ela acaba trabalhando com alguns projetos voltados à comunidade. Então, eles não sofrem tanto esse impacto porque essa outra escola também valoriza nossos povos. Mas há casos de alunos que vão para escolas onde não têm outros ciganos ou o seu currículo não contempla os povos ciganos. Ainda assim, eu acredito que o trabalho que a gente faz na base, na Educação Infantil, na primeira infância, fortalece tanto a identidade da criança cigana, que quando ela migra para outra escola com um currículo fechado, ela acaba incitando os professores e a escola a trabalharem também, porque ela parte de uma escola que a valorizou.

Eu vou dar um exemplo claro do meu filho. Ele tem 11 anos e está no sétimo ano. Meu filho estuda em uma escola particular, e a grade particular é mais fechadinha, com projetos bem particulares. Mas, ele sempre foi ensinado e toda atividade dentro da sala de aula que ele consegue incluir os povos ciganos, ele faz questão de inserir. Ele cobra dos professores. Inclusive, até já me levou para contar história na escola dele e pediu espaço para a direção para que eu fosse falar sobre os povos ciganos.

Então, eu acredito que as crianças ciganas são tão tocadas pelo modo que a gente trabalha na nossa escola do município, de se sentirem tão orgulhosas de quem são, que quando chegam em um espaço onde são minoria, acabam cobrando um olhar atencioso para eles. 

Confira a parte 1 da entrevista clicando aqui.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assuntos Relacionados