
“A participação das nossas crianças no evento teve muita magia: superação de medos, valorização da autoconfiança, união de um coletivo brincante, o reconhecimento do grupo Gigantes do Sucuiú perante outras comunidades, enfim, foi muito legal para elas e também para nós da equipe”, compartilhou Anna Cristina Prado (Kuia), mobilizadora territorial do projeto Foco nas Infâncias, sobre o intercâmbio cultural no território de Pituaçu, em Salvador (BA).
No último 26 de setembro, as crianças participantes do Projeto integraram a programação da 10ª edição do Festival Alternativo (@festival_alternativo). Sobre pernas de pau, as Gigantes do Sucuiú – grupo de quatro meninas pernaltas – desfilaram no Cortejo Pituarte, cuja caminhada se estendeu por duas horas pelas ruas da comunidade de Pituaçu.
Ana Beatriz, 11 anos, foi uma das Gigantes que enfrentou o medo com coragem e seguiu até o fim. “Eu gostei muito de me apresentar na perna de pau. Eu achei muito incrível, porque eu consegui superar meu medo. Da última vez que brinquei, eu tive um probleminha e fiquei com medo de andar de novo. Só que dessa vez, eu consegui andar numa perna maior que aquela e eu superei o medo”, declarou orgulhosa.
A puxadora do Cortejo foi uma atração à parte. A menina de nove anos, recém-chegada ao Foco nas Infâncias, protagonizou na comissão de frente do desfile com o seu megafone, exclamando anúncios, mensagens e convocando os moradores.
O Movimento Cultural Pituaçu em Rede Afetiva (@pituacuemrede) realiza o Festival todos os anos, desde 2017. O coletivo atua por meio da arte e pela preservação do Parque de Pituaçu – uma reserva ecológica da capital baiana, que mantém resquícios de Mata Atlântica; flora e fauna diversificada; espaços de lazer – ciclovia, parque infantil, quadras de esportes, pedalinhos; o Espaço Mario Cravo, com obras do artista baiano; e a centenária Lagoa de Pituaçu.
As crianças da Baixa do Tubo, embora residam em região próxima, não acessam os espaços de lazer e as praias do bairro vizinho. Segundo Joice Cristina, assistente social do Foco nas Infâncias, “o intercâmbio é importante, pois além do fortalecimento dos vínculos comunitários, é uma estratégia para que as crianças tenham direito ao Parque, que é um local próximo, mas que a comunidade não frequenta muito. Então, foi um momento também de alguns conhecerem e acessarem aquele espaço”, ressaltou.
A articulação com outras comunidades, por meio de ações educativas, culturais e políticas, é um dos objetivos do projeto Foco nas Infâncias. A construção dos vínculos e de ações conjuntas são caminhos para que as crianças e o grupo de mulheres mediado pelo Projeto exerçam o seu direito à cidade, à cultura e à participação comunitária.
Para Daniele, 10 anos, o passeio e a experiência foram maravilhosas. “Eu achei muito legal andar de perna de pau. Foi cansativo? Foi! Mas eu nunca vou esquecer, foi um dos melhores passeios que já fui pela Avante”, afirmou Dani, que não perde uma programação do Projeto.
Além das Gigantes do Sucuiú e da puxadora do Cortejo, outras nove crianças do Projeto participaram do festival e puderam curtir juntas uma programação bastante diversificada, que contou com a presença dos Caretas de Acupe, rodas de capoeira, palhaçaria, brincadeiras e distribuição de acarajé.
[Caretas de Acupe é uma manifestação da cultura popular do município de Acupe, distrito de Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. Os participantes usam roupas e máscaras produzidas artesanalmente, e têm a dupla função de divertir e assustar. Os Caretas são figuras cativas nas festas populares da região e também no pré-carnaval de Salvador.]
Os Caretas, portanto, foram a atração mais comentada entre as crianças. Nos diversos relatos, elas compartilharam sobre o medo e espanto iniciais, seguidos do carisma conquistado pelos personagens em suas interações. Charliane, 9 anos, foi uma delas. “Primeiro eu tava com medo do palhaço, das máscaras. Mas depois eu senti que eu fiquei boa, eu cantei no microfone. Aí, eu parei com o medo e consegui me enturmar, eu gostei muito. Gostei mais dos bichos que ‘tavam’ lá, dos Caretas”. Luna, 4 anos, foi mais objetiva. “Eu gostei do acarajé e das máscaras, elas são muito assustadoras”.
Esses e outros depoimentos foram compartilhados na atividade de escuta, realizada pela equipe do Projeto, na Baixa do Tubo, no primeiro encontro após o evento. As crianças foram ouvidas a partir da criação de desenhos e relatos sobre eles .
O projeto Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho é realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a @kindernothilfe (KNH).


