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Pausa pra respirar e acalmar na prática do Brincar

Arthur Alves Ramos tem seis anos e é muito levado. Mesmo muito pequeno, vive se metendo em confusão. Ele mora na Ocupação Quilombo do Paraíso, comunidade que integra o Movimento Sem Teto de Salvador, no Subúrbio Ferroviário de Salvador (BA), onde crianças em situação de vulnerabilidade social vivenciam suas infâncias. Nessa perspectiva, é inevitável que os desafios vividos nos dias se manifestem no cotidiano, e, por conseguinte, nas brincadeiras. Para minimizar efeitos como agitação, impaciência ou agressividade, Arthur, juntamente com outras crianças, tem vivenciado uma experiência diferente durante os momentos de brincar, ou em momentos de conflito, junto com a equipe do projeto Estação Subúrbio – nos trilhos dos direitos (Avante e KNH): parar, silenciar e respirar.

“Relaxado”. É como Arthur diz se sentir depois de respirar durante as atividades conduzidas por Zé Diego e Camila Souza, educadores brincantes do Projeto que atua na comunidade, tendo o brincar como principal estratégia para a redução da violência comunitária urbana, sobretudo a que atinge crianças e adolescentes, desde 2017. “Eu me sinto bem deitado no chão, vendo as flores e folhas que ficam na árvore”, descreve a imagem mental formada durante a atividade. Depois da brincadeira do silêncio, Arthur percebeu que fazer uma pausa para respirar ajuda a dar uma acalmada quando os ânimos esquentam. Zé Diego conta que, antes, quando aconteciam os conflitos, conversava e respirava junto com ele. Então, pedia que se afastasse para respirar um pouco mais sozinho e voltar mais calmo. Agora, Arthur vai por conta própria para casa respirar e voltar para a brincadeira. “Considero isso uma auto percepção interessante”, reconhece o educador brincante.

Assim como Arthur, outras crianças e adolescentes da ocupação também estão experimentando novas sensações de paz e calmaria antes de entrar na brincadeira, ou até mesmo, diante de alguma situação de conflito com os outros colegas. Luis Otávio da Conceição, de 10 anos, diz que faz a respiração antes da brincadeira e, com isso, se sente bem mais relaxado do que o normal, inclusive nos momentos de irritação e estresse. “Eu mando parar a brincadeira de brigar, de gritar, puxar a cadeira, dar rasteira. Teve uma vez que eu me senti com ódio e eu consegui relaxar e, às vezes, eu consigo até dar risada do que eu estou falando. Acho que a melhor coisa é respirar. Aí eu fico em paz e calmo”, disse.

Neste cenário marcado por conflitos, promover um momento de calmaria e relaxamento tem ajudado a reduzir a equilibrar as relações “Quando estamos em um contexto de violência em que eles brigam muito, a gente propõe uma atividade assim, mostrando outras qualidades de sensação com seu próprio corpo, para, daí, estabelecer essa mudança na relação com o outro: você, seu corpo e o corpo do outro”, explica Camila Souza, psicóloga, psicomotricista e educadora brincante do Projeto. 

Como uma brincadeira

Por conta da chegada da pandemia da COVID-19 em 2020, as atividades presenciais na Ocupação, que aconteciam semanalmente, precisaram ser interrompidas. Os momentos para silenciar já vinha sendo colocados em prática de forma esporádica e um dos focos era o trabalho com a respiração. Quando a equipe retornou a campo no segundo semestre de 2021, percebeu um ambiente um pouco mais conflituoso e buscou retomar o que havia sido iniciado em 2019. “A gente começou com um movimento de proporcionar o silêncio a essas crianças e promover a calma nos corpos de forma gradual. Começamos com um breve momento de silêncio, com respiração, enquanto o tempo era cronometrado. No primeiro dia foi um minuto, depois foram dois minutos, depois três minutos e agora já estão em oito minutos. Se alguém falar alguma coisa, zera a brincadeira e começa de novo”, conta Zé Diego, que também é psicólogo e tem formação em musicoterapia. 

Ele relata que tanto a equipe, quanto as crianças, começaram a perceber que quem chegava cedo e respirava ficava menos conflituoso ao longo da atividade, comparado com os que chegavam após a brincadeira do silêncio. “As que chegavam depois tendiam a se envolver em mais conflitos e, ao perceberem isso, elas propuseram que, quem chegasse depois, fizesse uma espécie de ‘quarentena’ – respirar sozinha por cerca de dois minutos  – enquanto a brincadeira estava rolando. A decisão foi das crianças e isso é bem relevante”, disse Zé Diego. A prática se tornou cotidiana no Projeto, sempre que acontecem conflitos. A equipe, então, senta com as crianças em uma roda para dialogar e, se necessário, os separa, cada um para um canto, para respirar e só depois retornar para resolverem, juntos, o que acontecerá a partir dali. 

Cultura de paz

Zé Diego ressalta que a proposta não é de meditação, e sim de introduzir o silêncio, prioritariamente, e relaxar o corpo, dar uma pausa. De acordo com ele, a brincadeira do silêncio e da respiração não só acalmou as crianças, mas com a redução dos conflitos fez com que as atividades do brincar na Ocupação passassem a acontecer de forma autônoma, sem a presença dos educadores, algo de grande importância para a garantia do direito do brincar. “Nessa perspectiva, eles aprendem a mediar os conflitos com a ajuda dos adolescentes, que estão sendo reconhecidos como aqueles que podem desempenhar esse papel de mediação. Está bem embrionário, mas já começou a acontecer”, disse.

Camila Souza conta que esse momentos de parada e respiração, assim como todas as atividades que a equipe vem executando, têm mostrado resultados. “A respiração veio para reforçar o objetivo do Projeto, que é a redução da violência. E como é que a gente reduz a violência? Quando a gente passa a se olhar e a escutar o outro. Quando a gente consegue realizar uma atividade dessa forma, conseguindo que eles se escutem e escutem os outros, nós vamos deixando de precisar impor uma ordem para evitar as brigas”, disse. 

As crianças atestam e aprovam a experiência. “Com certeza todo mundo se estressa menos para fazer as coisas e a gente resolve os problemas com mais calma”, diz Kauane da Silva Santos, 13 anos. “Eu fico relaxada, fico calma, me sinto ótima, fico com sono também”, diz Júlia de Jesus Miranda, de 14 anos. Amanda de Jesus Sales, 8 anos, diz que acalma a brincadeira e há menos brigas: “Paro de xingar os outros e a mãe dos outros”, disse.