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ENTREVISTA: Adulto em movimento, primeira infância em desenvolvimento

O que dizer de uma publicação que traz um olhar sensível e uma proposta calcada na prática sobre a relação do adulto com a  primeira infância? O que dizer de uma orientação, por meio de belas palavras e um visual leve e acolhedor, de como você, adulto, pode mover-se do seu, para o lugar da criança pequena? Promovendo, assim, uma aproximação que resulte numa explosão de prazer pelo laço fortalecido, um despojar dos pesos e pressas dos dias nos adultos e o libertar do natural fluxo de alegria na criança. E o que dizer quando essa publicação chega num momento tão delicado, quando completamos um ano de isolamento social, com o convívio das crianças basicamente restrito a suas famílias, uma maioria de adultos, afetando diretamente o seu desenvolvimento. Melhor do que dizer, é ler. É se permitir a experiência


A publicação em questão é PRIMEIRA INFÂNCIA EM MOVIMENTO, concebida e organizada por Ivanna Castro, consultora associada da Avante – Educação e Mobilização Social, como concretização do seu projeto no programa Global Leader for Young Children (Liderança Global pela Primeira Infância), criado pela World Forum Foundation. Ivanna, que atualmente reside em Portugal, para dedicar-se ao mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Educação da Criança (Universidade do Porto -UP), foi selecionada Global Leader (GL) em 2019 e participou do World Forum on Early Childhood Care and Education, em Macau (China). A publicação, lançada na versão digital, é organizada em três sessões de textos, elaborados por meio de colaboração firmada com as instituições: Avante – Educação e Mobilização Social, Ateliê Ecoar e La Casa Incierta. “O objetivo é convidar o(a) leitor(a) a refletir sobre a relação adulto-criança pequena, com a finalidade de prover experiências que coloquem esse adulto em movimento e o leve ao tempo e ao espaço da criança pequena”, explica Ivanna Castro. 

Quando idealizada, o cenário mundial era outro, vivíamos numa sociedade globalizada que seguia os “velhos padrões de normalidade”. Hoje, vivemos um momento crítico, merecedor do alerta dado pelo UNICEF em comunicado à imprensa, no dia 11 de março de 2021: “Após um ano de pandemia, todos os indicadores que medem o desenvolvimento infantil e adolescente recuaram, um revés que anuncia um estigma duradouro para toda uma geração”.

Longe das escolas e vivenciando uma redução drástica nas interações sociais – em muitos casos reduzido ao convívio familiar – algumas crianças ainda na primeira infância (0 a 6 anos), nunca foram à escola e têm cerca de metade da vida com pouco ou nenhum contato com outras crianças. O que não foi pensado para o momento, pode vir a calhar para uma conexão maior e de mais qualidade com os adultos, atuando na redução de danos. “(…) o cenário mudou bastante e percebemos que a publicação, neste formato digital, teria uma grande vantagem para o acesso e alcance das famílias, educadores, etc. E espero que assim seja, que esta publicação possa ser bastante disseminada e partilhada para alcançar e conectar muitos adultos nas suas relações com a criança pequena”, disse Ivanna, que na entrevista a seguir fala um pouco mais sobre a iniciativa. 

Qual a importância de mobilizar o adulto e levá-lo para o tempo e espaço da criança? Isso me parece um imenso desafio nos tempos de hoje. É possível? 

Ivanna Castro – Sem dúvida é um grande desafio, esse foi um ponto central na discussão com o grupo para a produção do conteúdo da publicação, pois nós adultos estamos tão adaptados a um tempo cada vez mais acelerado, que nos distancia do tempo da criança, que é um tempo menos veloz, do olhar microscópico e da percepção dos detalhes. Nos encontros que tivemos para pensar o conteúdo da publicação, pensamos em propor uma deslocação do lugar do adulto, uma observação que os levasse à liberdade de poder olhar de outra perspetiva, outro parâmetro e outro papel, que não só o papel de cuidador, um lugar diferenciado e, assim, se aproximar por outros roteiros de observação, para poder interpretar a criança de outro jeito. Porque muitas vezes, quando interpretamos a primeira infância, tendemos a reduzir o significado e a profundidade das coisas, bem como a potência do que ela está fazendo. Assim, a publicação nasce de um convite para a vinculação de aproximação com a criança, no fomento a espaços de nutrição para ambos os lados: criança e adulto.

Para isso, é ressaltada a importância do silêncio, de sentar, de pausar, da respiração, do lugar do não fazer. Uma relação que começa no intercâmbio dos olhares, dos movimentos, que possibilita o adulto trocar o ponto de vista, por exemplo, olhar de cabeça para baixo. Quando você muda de ponto de vista, você muda de papel. Sem dúvida, é uma oportunidade para o adulto se deslumbrar com coisas que não percebia antes.

O que te levou a pensar na construção de uma publicação nesse formato, e a escolher a participação destas três instituições: Ateliê Ecoar, Avante- Educação e Mobilização Social e a Companhia de Teatro para a Primeira Infância La Casa Incierta?

Ivanna Castro – A ideia da publicação surgiu no World Forum, em Macau [China], quando me reuni com o grupo de Global Leaders da América Latina para pensarmos em nossos projetos, foram muitas as ideias que surgiram neste encontro e a mim, particularmente, veio-me a de propor práticas de/para/com as crianças pequenas, mas devido a minha condição de estar morando em Portugal e longe, de certa forma, da rede brasileira, pensei em uma publicação que levasse, para além das reflexões, práticas inspiradoras para este tempo entre criança e adulto. 

Assim surgiu a ideia de convidar organizações reconhecidas pelo trabalho com a criança pequena, especialmente ligadas ao campo da arte-educação, para poder consolidar e dar corpo e alma a este projeto. Estivemos reunidos por algumas vezes para discutir a colaboração de cada uma delas no projeto, bem como para pensar princípios comuns para elaboração do conteúdo, pontos de convergência entre o trabalho desenvolvido nas organizações, mas obviamente, cada uma falando do lugar que ocupa e do trabalho que desenvolve. As instituições mostraram interesse e tornaram possível termos este trabalho sensível, de aproximação com a criança pequena a partir das sutilezas e dos saberes construídos na relação criança-adulto.

Quando você idealizou a publicação não tínhamos a perspectiva de viver essa experiência de isolamento social, onde as crianças intensificaram a convivência com suas famílias e se afastaram do convívio com seus pares. Em que você acredita que a publicação vem a colaborar com esse momento?

Exatamente. Quando pensei na publicação, ainda não tínhamos o quadro de pandemia estabelecido. O convite foi enviado em fevereiro de 2020. Poucos meses depois, o cenário mudou bastante e percebemos que a publicação, neste formato digital, teria uma grande vantagem para o acesso e alcance das famílias, educadores, etc. E espero que assim seja, que este trabalho possa ser bastante disseminado e partilhado para alcançar e conectar muitos adultos nas suas relações com a criança pequena. 

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