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Todo mundo encontra lugar na ocupação brincante da Praça do Sucuiú

Entre a pré-escola da comunidade da Baixa do Tubo e a residência dos pequenos estudantes está a praça do Sucuiú, o centro dos encontros brincantes do projeto Foco nas Infâncias. No trajeto de ida à escola, esse local é apenas um atalho para encurtar caminho. Mas quando toca o último sinal da escola, o percurso de volta para casa ganha outro sentido.

Pulsante, cheia de crianças e brinquedos, a praça já não é mais a mesma no final da tarde. De lugar de passagem, ela se transforma num espaço divertido e convidativo para as crianças pequenas que, puxadas pelo braço, atrasam o passo das mães por culpa do olhar comprido em direção ao centro da praça.

Foi assim que as primeiras crianças menores de seis anos se interessaram pelas vivências do projeto Foco nas Infâncias, realizado no espaço público da Baixa do Tubo. Elas foram chegando devagar. Primeiro, observando curiosas o movimento brincante das crianças maiores quando passavam em frente à praça. Depois, num evento e outro realizado pelo Projeto na comunidade. Agora, elas não somente participam das atividades com as crianças veteranas, como foram responsáveis por ampliar experiências, sociabilidades e novos vínculos intergeracionais.

“As mães que agora sentam na praça e observam os filhos brincarem com a gente, buscavam as crianças na escola e passavam direto. Nos viam, mas não paravam. Até que foram se acostumando com a nossa presença e, então, abriram esse espaço para estar conosco”, explicou Anna Cristina Prado (Kuia), mobilizadora territorial do projeto, sobre a aproximação dos pequenos e das suas cuidadoras ao Projeto. 

Valdeci Vieira, conhecida na comunidade como Dona Val, é daquelas que, vez ou outra, se disponibiliza a buscar as crianças da sua rua na escola – sobrinhos, sobrinhas, filhos e filhas de famílias da vizinhança. Entusiasta do Foco nas Infâncias, Dona Val fala convicta sobre a importância das experiências desenvolvidas na praça e dos benefícios para as crianças que, segundo ela, “saem agoniadas e estressadas da escola”.

“Quando a gente chega na praça, as crianças brincam à vontade e se sentem bem com as ‘tias do Projeto’, que acolhem e trazem brincadeiras meio esquecidas pela escola: brincadeiras de roda, de pintar, de desenhar e de diálogo entre eles mesmos, para que melhorem mais a desenvoltura da mente, do aprender a ler e a desenvolver outros tipos de aprendizado”, declarou Dona Val. 

Inclusão

As atividades do projeto na praça do Sucuiú, ao acolher a primeira infância, têm cumprido um importante papel de aproximar as crianças maiores das menores, de incluir as crianças com deficiência nas brincadeiras e de contribuir para o desenvolvimento de cada uma delas.

“Minha sobrinha tem hidrocefalia. Para ela, é muito importante estar próximo de outras crianças, sem medo, sabendo que não vão agredi-la, que vão acolhê-la. Ela se sente bem, conversa, canta e fala o que está sentindo. E a minha filha, que não sabia muito desenhar, agora desenvolveu esse aprendizado e está desenhando muito bem”, compartilhou Dona Val, orgulhosa. 

Duas crianças com deficiência têm participado do Foco nas Infâncias neste momento, confirmou Kuia. Além de brincar e interagir em todas as atividades – circo, perna de pau, pintura-, elas passaram a ser respeitadas e acolhidas pelas outras crianças. “Às vezes, aconteciam uns conflitos e essas crianças acabavam sendo chamadas de PCD (pessoa com deficiência), de forma pejorativa, pelas outras. Mas isso mudou. Acredito que a gente conseguiu fazer esse processo de educação para o acolhimento da diversidade, porque esse também é o nosso papel”, declarou.

Segundo a mobilizadora, é comum que essas crianças cheguem chateadas e chorosas à praça, em função dos conflitos vivenciados na escola. “A gente acolhe, pergunta o que aconteceu. Às vezes, elas falam chorando. Mas a gente vai acalmando e, de repente, elas já estão pintando com as outras crianças”, compartilhou.

Acolhimento

Com muito diálogo, mediação e colaboração, todas as crianças – grandes e pequenas, com e sem deficiência – têm encontrado um lugar importante de interação, respeito e cuidado entre si. 

Encontrar uma dinâmica ou brincadeira em que as crianças maiores (pré-adolescentes) e as menores curtam juntas sem conflito não é tarefa simples. No entanto, a tática da inserção da primeira infância como “café com leite” tem dado certo no Projeto e incentivado o cuidado das maiores com as menores. 

Embora as pré-adolescentes não celebrem a participação dos pequenos em suas brincadeiras, existe um movimento importante de atenção e de cooperação que precisa ser destacado. “Eu vejo isso quando as maiores carregam as crianças no colo, quando auxiliam quando uma cai, quando uma criança pequena quer usar uma perna de pau e outra maior ajuda. Quando as crianças menores querem pintar e as maiores entregam os materiais. Tudo isso é demonstração de acolhimento”, declarou Kuia.

A realização do projeto Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho tem sido ainda, conforme Dona Val, um espaço de incentivo e valorização do brincar fora das telas. 

“Na praça, a gente leva as crianças para brincar de brincadeiras normais, porque em casa elas só querem televisão, celular, videogame. Eu me sinto feliz pela oportunidade que todos nós – crianças e adultos – temos tido de participar do Projeto. Todas as crianças estão se desenvolvendo, e isso é maravilhoso”, concluiu Dona Valdeci.

O Foco nas Infâncias é realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social em parceria com a @kindernothilfe (KNH).

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