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Meninas Negras: a história do meu black

Quantas meninas negras cresceram condicionadas a prender o cabelo para não terem o seu volume e texturas notados por olhares, risos e expressões preconceituosas, principalmente na escola?

O ambiente escolar pode ser assustador para crianças negras quando a diversidade ainda não é celebrada em seus modos estruturantes de educar. Nesses casos, de lugar dedicado às aprendizagens e interação entre pares, a escola pode se tornar um espaço de violências – físicas e simbólicas.

No centro da brincadeira que machuca e constrange, quase sempre está o cabelo crespo e suas diferentes versões (black power, dreads, tranças, alisados). Justo ele, o símbolo mais proeminente da beleza e resistência negra, guardião da autoestima da maioria das crianças, sobretudo das meninas.

Principal alvo de discriminação, o cabelo pode ser, por isso mesmo, um ponto de partida importante para estabelecer diálogos sobre o racismo desde a Educação Infantil. Desse modo, para auxiliar famílias e educadores a compartilharem a temática e experiências relacionadas a padrões estéticos étnico-raciais com as crianças, a Avante – Educação e Mobilização Social indica a leitura de Meninas Negras: A história do meu black

O livro, produzido por duas crianças e suas respectivas mães, é uma oportunidade de refletir sobre as aprendizagens intergeracionais promovidas a partir do aspecto racial. As quatro autoras e personagens dessa narrativa compartilham as suas próprias experiências com o racismo, vividas em diferentes tempos e lugares.

As meninas Alice Pereira e Julia Gomes são também as ilustradoras do livro, para orgulho das mães Daniele Pereira e Eliane Gomes. Os desenhos feitos à mão, com lápis de cor, ajudam a traduzir em imagem os relatos partilhados.

Sobre a narrativa…

A história do meu black é sobre experiências individuais que sintetizam uma ferida social. É sobre experiências vividas na infância e na maturidade. Sobre o presente e o passado. Sobre a nossa História e tantas formas de opressão que não isentaram sequer os fios de cabelo da população negra.

É um livro também sobre encontro de gerações, em que as garotas dos 1980 apresentam à geração Z o pente quente, segundo Eliane, o bisavô da chapinha, e também o alisante mais famoso daquela época: o Henê, tataravó do formol, como brinca Daniele. 

Todas as histórias do livro, embora em tom de leveza, são alinhavadas por um constrangimento, uma dor, uma violência contra a liberdade do cabelo afro. A maioria delas ocorridas na escola, lócus da reprodução do racismo aprendido fora dela. 

A narrativa apresenta ainda um caráter didático importante, pois traduz, de forma simples, conceitos que atravessam séculos e trajetórias de exclusão e discriminação.

Estruturado a partir de seis histórias – das 4 autoras e 2 convidadas, o livro pretende “celebrar as muitas e diferentes belezas!” e incentivar o leitor a pesquisar os diferentes movimentos da cultura negra.

  • A primeira história, Cabelo armado? Que qué isso? é contada por Alice, e aborda a ressignificação positiva do termo “armado”.
  • A história 2, intitulada Encaracolado, é narrada por Júlia, que ignorou o racismo sofrido na escola nova, pois já havia adquirido consciência da sua beleza.
  • A terceira história, Cachinhos, olhos puxados e pente quente, narra a experiência de Lili (Eliane), que viveu a sua infância na década de 80 e precisava alisar o cabelo para não chamar a atenção. Lili era tímida e insatisfeita com suas madeixas crespas, até mudar para uma escola com referências positivas da beleza negra.
  • Medo de que? É a quarta história. Nela, Dani compartilha sobre quando foi obrigada a usar Henê. Dani não tinha problemas com o seu cabelo, mas a sua mãe se incomodava a ponto de obrigá-la a alisar.
  • As histórias 5 e 6 compõem o capítulo Cabelos pelo mundo. Em – Todo mundo tem o cabelo igual ao meu? Ada explica para a sua filha, Marie, como se deram as invasões europeias e apresenta a ela a diversidade do mundo.
  • A última história Meu Black trata da descoberta de Marie sobre a beleza da sua juba ondulada e sobre a versatilidade de truques e produtos para deixá-la deslumbrante.

Mas, antes que o leitor se pergunte se o livro é somente sobre meninas, as autoras puxam outro fio desse cachinho: Meninos também têm black. O capítulo aborda a diversidade das cabeleiras masculinas e lança um convite para a escrita coletiva de um novo livro baseado nas experiências dos garotos.

Meninas Negras: A história do meu black é uma excelente oportunidade para compartilhar a boa palavra do antirracismo. A obra, destinada para crianças e adultos, está disponível gratuitamente para download e merece todo o nosso engajamento.

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