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Educação antirracista e cultura de paz. Por um currículo com vidas

Uma criança que não seja abraçada por sua tribo, quando adulto, queimará a aldeia para sentir o seu calor. 
Provérbio Africano

Por Carla Aragão

A expressão “violência extrema na escola” é um contrassenso que não deve ser naturalizado. A escola, como espaço da troca com o outro, da construção de conhecimentos, de socialização, do exercício da cidadania e da participação, demonstra adoecimento quando se naturaliza como espaço de violência cotidiana.

Foi partindo desse entendimento que a equipe do Colégio Estadual Polivalente de Amaralina, situado no Nordeste de Amaralina, em Salvador (BA), construiu as bases da sua atuação político-pedagógica pautadas no tripé: escola aberta para toda comunidade; escola feita para e com os estudantes; e escola que respeita a diversidade e promove uma educação antirracista.

Ainda que os muros do Colégio sigam fisicamente altos, basta ingressar pelo portão de ferro para observar a circulação de estudantes, ex-alunos, famílias, moradoras do bairro, parceiros e uma série de especialistas, convidadas e convidados que dinamizam a rotina escolar com projetos, palestras e cursos. Em 2023, por exemplo, foram organizados cursos de cabeleireiro, fotografia, maquiagem profissional, hotelaria, entre outros.

Sempre que a Unidade Escolar conquista uma parceria, uma cota das vagas é destinada às pessoas do bairro, principalmente para a juventude, majoritariamente negra, que tem sido literalmente a população-alvo da violência na comunidade, considerada uma das mais vulneráveis de Salvador. 

Duas semanas antes da realização da entrevista, tivemos que remarcar a visita por conta da morte de um ex-aluno da escola, um jovem negro morto por arma de fogo em condições ainda não esclarecidas. “A polícia não tem vindo para ajudar, ela vem para amedrontar. Falar sobre isso me dói porque eu perdi mais um aluno meu com seis tiros”, nos relata o educador-articulador, Denis Silva, educador-articulador do Colégio e morador do bairro há mais de 20 anos. 

Silva conta que uma grande comoção tomou conta das professoras e estudantes e a escola organizou momentos de escuta e acolhimento. Depoimentos como o dele têm sido recorrentes entre professoras e professores da Rede Estadual de Educação da Bahia. O boletim “Pele alvo: a bala não erra o negro”, elaborado pela Rede de Observatórios da Segurança, revelou que o estado é líder no ranking de letalidade policial contra pessoas negras. 

O estado registrou 1.465 mortes, sendo 94,76% de pessoas pretas e pardas. A maioria (74,21%) tinha entre 18 e 29 anos. Crianças e adolescentes com idade entre 12 e 17 anos foram 7,38% das vítimas. O mesmo levantamento traz que, a cada 24 horas, quatro pessoas negras foram mortas pela polícia brasileira em 2022. Os dados foram obtidos junto a secretarias estaduais de segurança pública de Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, via Lei de Acesso à Informação (LAI).

O Comitê de Prevenção de Homicídios de Crianças, Adolescentes e Jovens no Município de Salvador denunciou uma série de violações que são cometidas contra esse público, durante a Roda de Conversa: 30 Anos do “26 de Agosto” no Lobato e a pauta cotidiana dos homicídios infanto-juvenis na cidade, realizada com a participação de estudantes.

“Eu tô cansada de pessoas que não pisam onde eu piso discutirem as minhas dores e não me ouvirem. Nada sobre nós sem nós”, afirmou na abertura da Roda de Conversa a jovem negra Nadjane Cristina, membro fundadora do Coletivo Incomode, criado para denunciar a violência contra as juventudes, sob aplausos de diversos estudantes.

Esta é uma reivindicação antiga dos adolescentes e jovens do Estado e que o Polivalente de Amaralina busca contemplar através de espaços de escuta e participação. “O aluno chega na escola e percebe que é uma escola que acolhe; a gente vai entender as demandas deles, os medos, e também da família e ver de que forma a gente pode apoiar para que aquele aluno consiga concluir o ensino médio com sucesso”, afirma Luciana Pita, coordenadora pedagógica do Polivalente. 

Ela conta que, cotidianamente, a escola lida com situações de exposição dos estudantes à violência, “seja por parte do estado, seja por parte do poder paralelo”.  É no atendimento coletivo assegurado pela psicóloga, que é moradora do bairro, que elas e eles encontram espaço para falar dos seus medos, sofrimentos e dos seus sonhos. E a escuta é o ponto de partida para a busca, quando necessário, da rede de apoio.

“Eles vêm para escola com uma garra, ultrapassam becos e vielas, sobem escadas, descem ladeiras, e vêm com uma determinação e temos que cuidar disso. Temos alunas fantásticas, estudantes maravilhosas que podem ser cientistas, atrizes, basta tirar o olhar um pouco eurocêntrico, esse olhar que quer estigmatizar o jovem negro”, argumenta. 

Projeto de Vida

A estudante Elisângela Souza e o colega Fabrício Santos, ambos com 19 anos e concluintes do Ensino Médio, contam que, por meio do componente Projeto de Vida, a professora trabalhou questões relacionadas à identidade, autoestima, valorização da estética e cultura negra.

“Aqui na escola não me sinto muito julgada, na verdade me sinto apoiada porque as pessoas acreditam em mim. Eu sonho em ser atriz porque quero representar essa população que não é vista, quero poder mostrar um pouco da cultura de onde venho”, conta Elisângela. 

A coordenadora Luciana explica que o componente de Projeto de Vida, e não somente ele, se articula com a proposta do currículo da escola, que é pautado em uma perspectiva antirracista. O trabalho se estrutura a partir de uma narrativa centrada no reconhecimento e valorização da identidade étnico-racial, que provoca o estudante a falar da sua experiência, seus sonhos e os caminhos que serão percorridos para alcançá-los. 

Enquanto muitas escolas temem esse tipo de abordagem, Luciana explica que não vê um outro caminho senão esse diálogo afetivo e aberto para cultivar na escola um ambiente de respeito e acolhimento. “Colocamos os meninos para escreverem cartas, fazerem relatos, desenhos que expressem sua vontade, seu desejo, sua angústia”.

A professora de Projeto de Vida, Shayanne Rocha, conta que a metáfora do “olhar para o espelho” provocou nas alunas e alunos reflexões sobre as nuances do racismo que vivem, as fobias, os preconceitos e os modos de enfrentamento. O objetivo é favorecer um processo de empoderamento diante de discussões que elas e eles terão que travar, e situações que precisarão enfrentar para lidar com o racismo estrutural que impactarão suas vidas para além da escola e os seus projetos de vida.

Durante a exposição da 1ª edição da Festa Literária promovida pela escola e com participação ativa dos estudantes na organização e exposições, o trabalho do estudante Fabrício chama a atenção por ser muito revelador do processo vivido com a turma. Em seus desenhos, é possível ver um rapaz sendo sugado pela sua própria sombra. “A sombra quer dizer os problemas, as dificuldades, qualquer tipo de conflito que a pessoa tenha”, explica.

Ele conta que a arte o ajudou a expressar o que ele não conseguia e que, a partir daquele momento, encontrou na escola e nos colegas apoio para seguir em frente. “É uma escola negra, em um bairro preto, que emerge da periferia, que tem meninos e meninas gays, lésbicas, trans. Então, o principal foco do nosso projeto político pedagógico é educar democraticamente para a diversidade. Não há escola pública sem pensar diversidade”, defende Luciana.

Prevenção à violência na escola

Um Comitê Estadual Interinstitucional de Segurança nas Escolas e nos Espaços Educacionais da Bahia (Cise) foi criado em abril deste ano com objetivo de articular órgãos, entidades da administração pública e representantes da sociedade civil para discussão do tema e proposição de projetos.

A criação do Comitê ocorreu após uma semana marcada por atos de violência dentro de escolas baianas. O primeiro episódio foi cometido por um estudante de 20 anos, que invadiu um colégio, em Salvador, armado com uma faca. No mesmo dia, outro estudante foi apreendido com uma machadinha e um facão dentro da mochila. Desde a criação do Comitê, algumas ações pontuais estão em curso, mas com pouca visibilidade e escala. 

Prevenir e impedir os ataques às escolas perpassa por ações extra e intraescolares, por meio também de um trabalho intersetorial, envolvendo setores públicos e privados na construção de estratégias amplas que envolvam a comunidade escolar, e principalmente, as estudantes e os estudantes.

No Polivalente, a diretora Conceição conta que, ao menor sinal de que algo está fugindo o nível do aceitável nas relações, estudantes, professores, famílias e, se necessário, especialistas (da área de saúde ou assistência por exemplo) são chamados a uma reunião para que todos possam ser escutados e um encaminhamento seja definido conjuntamente. 

“O caminho não é a punição, a suspensão ou o constrangimento. Muitas vezes, esses estudantes reproduzem o que veem em casa. É por isso que a família tem que estar presente. Então, o primeiro passo é conhecer o porquê daquela atitude agressiva logo no início, chamar para conversar. Não adianta expulsar para que esse jovem seja inserido lá na frente em outra escola”. 

Garantir a segurança dentro das escolas é um dever constitucional e a escola é um espaço importante que precisa estar associada e plenamente integrada a redes protetivas. Estratégias preventivas perpassam o fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos, na retaguarda e na proteção da integridade de crianças, adolescentes e jovens. 

A UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação defende que a educação sem violência deve ser um projeto de toda a escola, o qual deve ser planejado, integrado em todos os aspectos do currículo escolar, na pedagogia e nas atividades, envolvendo todos os professores e profissionais da escola, assim como toda a estrutura organizacional da equipe de tomada das decisões educacionais. 

As práticas de não violência precisam estar refletidas em todo o ambiente escolar. A cultura de paz deve ser uma atitude que permeia toda a teoria e prática de ensino, envolvendo os profissionais de educação e os estudantes, as famílias e a comunidade, em um desafio comum e compartilhado com toda sociedade.

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