
“Eu não quero que as crianças ciganas cheguem na escola e se sintam como eu me sentia, um peixe fora d’água. Eu me perguntava por que tantas outras culturas eram privilegiadas, tantas histórias contadas na escola e nenhuma delas era sobre os povos ciganos”.
Do incômodo de uma criança à inquietação de uma jovem que queria transformar a realidade das infâncias de seu povo, nasce uma educadora e escritora engajada em propagar a cultura cigana e em possibilitar que milhares de crianças ciganas pudessem se reconhecer nas páginas dos livros infantis.
Marcilânia Alcântara, professora, escritora e artista compartilhou com a Avante – Educação e Mobilização Social sobre os desafios de ser a primeira mulher universitária da sua comunidade, a dedicação para se tornar uma educadora influente no seu município e a paixão de usar a sua formação e cultura para fortalecer a identidade cigana.
Marcilânia conclui a primeira parte dessa conversa partilhando os inúmeros significados do seu livro Marcy e as castanholas mágicas, publicado em 2024, e a relevância de contribuir para a diversidade da literatura infantil.
O diálogo com Marcilânia tanto rendeu que, para não perder uma palavra de suas partilhas, dividimos esse diálogo em duas partes.
Confira!
Avante: Como foi, em sua comunidade, o processo de aliar tradição às transformações sociais contemporâneas, sem perder a identidade?
Marcilânia: Eu fui a primeira mulher cigana da minha comunidade a adentrar o espaço da Universidade. Eu costumo dizer que foi um divisor de águas. As meninas puderam ver que podiam se casar, constituir família, mas também seguir uma carreira, estudar. Até então, nenhuma das meninas tinha tido essa ousadia, mas eu sempre fui rebelde, sempre vi na Educação essa mola transformadora, essa porta que abre para diversos mundos. No entanto, eu nunca quis perder a minha identidade cigana.
Quando passei no vestibular, não tinha curso de Pedagogia na minha cidade, então, eu fui para a Universidade Federal de Campina Grande, no campus Cajazeiras, cidade próxima a Sousa. Dentro da minha comunidade, escutei diversas críticas, inclusive de pessoas da minha família. Muitas pessoas também desvalorizavam o fato de eu ter optado por ser professora, mas meu pai e minha mãe sempre viram, assim como eu, que a Educação era o caminho.
A gente foi muito pobre. Meu pai sofreu bastante, principalmente quando era nômade. Dos meus irmãos, só a minha irmã mais velha foi nômade. Mas meu pai sempre foi visionário, sempre viu na Educação o mesmo que eu vi. Então, meu amor pela Educação também parte dos meus pais, de não terem deixado que nenhum dos filhos não estudassem. Na minha família, eu sou professora, meu irmão é formado em Marketing, tenho outro irmão biomédico, uma irmã enfermeira e um irmão que está terminando o curso de Matemática.
Avante: Como foi a sua experiência na Universidade?
Marcilânia: Quando eu fui para a universidade, eu levei a cultura cigana, porque ainda há uma lacuna enorme sobre povos ciganos na Universidade. Quando algum estudante decide estudar sobre as culturas ciganas, é sempre um olhar de fora, de quem não é cigano. Eu tenho até uma crítica, porque muitas vezes os estudantes que estão fazendo pesquisas no mestrado, doutorado ou nas licenciaturas mesmo, nos cursos de graduação, muitas vezes vêm à comunidade, coletam e não traduzem realmente o que é vivenciado. Muitas vezes, partem do olhar deles próprios.
Eu saí do espaço da comunidade para outra cidade, adentrei ao ensino superior, mas não perdi a minha ciganidade. Pelo contrário, eu acho que me fiz ainda mais cigana dentro da Universidade. Porque, assim como na escola, eu não vi na Universidade o empenho em falar sobre essa população que existe no Brasil desde a invasão portuguesa. Eu senti que reafirmei a missão que havia dentro do meu coração. E aí, quando as pessoas da minha comunidade viram que eu cheguei em outro espaço sem perder a minha ciganidade e elevando o nome dos povos ciganos, acredito que foi o divisor de águas.
Então, as meninas que antes não vislumbravam seguir carreira, acabaram vendo por meio de um exemplo real que era possível ser cigana, se identificar como cigana, cultuar os seus costumes e também fazer carreira. Buscar os seus sonhos de ser escritora, médica, enfermeira, sem perder a sua etnia e identidade cigana. Dentro desses espaços, a gente contribui mais com a nossa comunidade, porque são mais pessoas tocadas pelo conhecimento de quem são e como são os povos ciganos.
Quando uma enfermeira cigana trabalha num posto de saúde, ela tem ali um núcleo que ela acaba acolhendo, seja de pacientes ou profissionais que trabalham com ela. Então, por ser cigana, ela tem a oportunidade de falar sobre quem são os povos ciganos. E a gente combate o preconceito também dessa forma. Isso se dá com todos os tipos de profissionais. Então, a gente viu que a Educação era o caminho para transformar uma realidade que, por muito tempo, pensamos que partiria de fora para dentro da comunidade. E a minha comunidade enxergou que não, que a mudança nós mesmos faríamos a partir da Educação.
Hoje, 100% das crianças da comunidade são matriculadas na escola. O abandono escolar na adolescência cigana diminuiu drasticamente. O acesso ao ensino superior também cresceu bastante. Isso também se deve à questão da política de cotas, que algumas universidades acabaram adotando. Foi uma mudança lenta, mas muito positiva dentro da minha comunidade.
Hoje, a gente tem muitas mulheres no mercado de trabalho. Antigamente, era impossível ver uma mulher cigana trabalhando fora da comunidade. Então, foi uma mudança gradativa, mas que nos trouxe muitas oportunidades também.
Avante: Como você avalia a presença de uma professora cigana, artista e escritora na escola e influente em todo o município?
Marcilânia: As brincadeiras, as inquietações sempre me levaram para a Educação. Eu acredito que o trabalho que eu faço [sou modesta, né? Risos] tem grande relevância na vida das crianças ciganas. Eu não quero que as crianças ciganas cheguem na escola e se sintam como eu me sentia, um peixe fora d’água. Eu me perguntava por que tantas outras culturas eram privilegiadas, tantas histórias contadas na escola e nenhuma delas era sobre os povos ciganos. Tanto tempo que o Brasil existe, a gente está aqui. Então, isso sempre me inquietou bastante.
Além de professora, eu tenho um grupo artístico, o Dirachim Kalim – são duas palavras da nossa língua cigana, que significam dirachim – noite, e kalim – cigana. Dentro dos nossos espetáculos, a gente trabalha com poesia, dança e músicas ciganas. E nas músicas a gente conta também essa história, mostrando a parte bonita do que é ser cigano.
Eu também sou contadora de história nata, porque sendo neta de Dona Quitéria, eu não conseguiria ser diferente. Eu acredito muito no público da primeira infância. Aquilo que a gente ensina para uma criança segue com ela por toda a vida. Também acredito nessa forma bonita de falar sobre os povos ciganos: por meio da contação de histórias, dos elementos mágicos e de tudo que eu acho belo dentro da minha cultura.
Avante: Você publicou um livro infantil sobre cultura cigana. Conte-nos um pouco sobre o que inspirou e motivou a sua escrita.
Marcilânia: O livro Marcy e as Castanholas Mágicas traz uma história minha e da minha avó. Na verdade, aqui estão as castanholas, só que a minha avó me presenteou com outra coisa. Eu coloquei as castanholas porque eu sou muito ligada à dança. Quando eu danço o meu espírito se eleva para um plano que não é daqui. Eu consigo me desprender dos problemas da vida e do cotidiano. A dança sempre foi muito presente no meu convívio familiar, com a minha avó.
Minha avó sempre esteve muito presente. O amor que tenho pela cultura se deve muito às conversas e histórias que ela me contava. Ela sempre demonstrava uma alegria enorme em ser cigana, em valorizar os costumes. Então, muito do que eu sou e o meu amor pela cultura devo à minha avó e ao meu avô – essas figuras primordiais na minha vida e na vida dos meus irmãos.
Eu sempre senti muita necessidade de ver nos livros escolares histórias que eu partilhava na comunidade. Marcy e as Castanholas Mágicas faz com que as crianças sintam esse senso de pertencimento, de ver uma história cigana sendo contada na escola. A literatura é uma forma dessa escola, muitas vezes elitista, trabalhar com a diversidade cultural que existe no Brasil.
Marcy e as Castanholas Mágicas teve sua publicação possível por meio de uma lei de incentivo à cultura, a lei Paulo Gustavo. E já tenho um segundo livro a caminho. Eu sempre quis trazer a cultura cigana para a literatura, que hoje em dia no Brasil ainda é muito escassa. Se você for pesquisar, há poucas obras relacionadas à cultura cigana, principalmente produzida por pessoas ciganas.
Marcy e as castanholas mágicas é a realização do sonho de uma menina cigana que ousou ver na escola e em um livro pelo menos uma história que tivesse personagens ciganos. Esse livro já percorreu todo o Brasil. Onde eu vou, eu carrego comigo, porque ele é a materialização de um sonho.
Essa é a minha missão de vida – como professora, mulher cigana, contadora de história, amante das artes. Apesar de toda a dificuldade, eu não me vejo sendo uma pessoa diferente de uma mulher cigana. Eu amo a minha cultura, os ensinamentos. Amo pertencer a esse povo que nunca está sozinho, que o estar junto é muito presente. Essa é uma parte muito bonita da minha cultura, que eu preservo bastante. Eu amo pertencer ao povo cigano, apesar de toda a dificuldade e preconceito que enfrentei na escola, na universidade, na rua, e que ainda enfrento por ser mulher cigana.
Avante: O que você espera que Marcy e as castanholas mágicas desperte nos pequenos leitores?
Marcilânia: Espero que as crianças que tenham acesso à Marcy e as castanholas mágicas possam olhar para as pessoas ciganas com outros olhos, com olhos de quem realmente são os povos ciganos: pessoas como qualquer outra no mundo, cujas diferenças são os nossos costumes e tradições, mas temos direitos e deveres como qualquer cidadão.
A minha missão é propagar o nome dos povos ciganos. Quero que quando meus filhos e as crianças que eu atendo na minha escola e comunidade cresçam tenham oportunidades que eu não tive. E meu sonho é esse: uma sociedade mais justa, que um dia a gente possa olhar para o diferente e ver o encantamento e o embelezamento que o diferente tem para a nossa construção social e pessoal.
Acesse a resenha do livro Marcy e as castanholas mágicas clicando aqui


