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Voltar às aulas ou reabrir escolas?

É natural desejarmos pensar num “mundo” pós pandemia. Mas quando o assunto é a escola, um equipamento essencial para a comunidade, surge uma urgência de retomada, que para alguns se traduz como uma suposta “normalidade”, provocando a necessidade de trazer as reflexões para o presente, ainda pandêmico, e intensifica a urgência de diálogos entre os diversos setores e atores que integram e influenciam o ambiente escolar sobre onde pousa a necessária mudança na Educação.  

Muito antes da crise sanitária, econômica e até moral em que nos encontramos, já vivíamos uma crise no sistema educacional, com práticas datadas de dois séculos ou mais. Seria lugar comum dizer que a Educação caducou. Com a suspensão das aulas, por conta da pandemia provocada pelo novo coronavírus e as dúvidas e inseguranças que emergem quando se fala num retorno, tornou-se quase obrigatório escutar, para refletir e dialogar para que sejam definidos mais do que protocolos de segurança. É preciso uma revisão das práticas pedagógicas dentro das instituições. Não é uma questão de voltar às aulas, como quem se despede das férias, mas de como reabrir as escolas. 

As decisões precisam ir para além da adesão, ou não, a uma educação presencial, a distância ou híbrida. É preciso refletir sobre a cultura do fracasso escolar que assola o Brasil – no mundo, o País que vem mantendo suas escolas fechadas por mais tempo. Maria Thereza Marcilio reflete sobre as possibilidades e necessidades pedagógicas quando as escolas reabrirem as portas, e crianças e adolescentes retornarem ao ambiente escolar de forma segura e com qualidade. 

No cenário em que estamos mergulhados não parece haver condições de prosseguir com a escola no mesmo formato de antes da pandemia. Na sua opinião, qual seria o direcionamento? 

No mundo ideal, eu vejo isso: escolas menores, próximas da comunidade, professores bem pagos, bem formados, a escola aberta, usando espaços da comunidade, usando muito mais os recursos da natureza e com grupamentos menores. 

Isso demanda uma mudança de cultura, de paradigmas de toda uma sociedade e no momento estão todos preocupados com o retorno, e alguns pedindo por ele de imediato…

As pessoas estão achando que vão poder voltar tudo como era antes, tirar a máscara, aglomerar. Talvez não possamos mais fazer isso, tirar a máscara em determinadas circunstâncias, talvez elas tenham vindo para ficar. Em um paralelo com o 11 de setembro, quando nunca mais as viagens de avião foram as mesmas, ir para o aeroporto nunca mais foi a mesma coisa, você não vai mais com a mesma tranquilidade, não é mais aquela coisa assim pura e simples, passamos por controle, suas malas passam por controles, tem que tirar objeto, não pode levar determinados objetos, tirar sapato, tirar cinto.  E nós incorporamos isso como parte da rotina de viagem. A mesma coisa agora, nós vamos ter que incorporar o uso da máscara em muitas circunstâncias, não promover mais eventos de maiores aglomerações, porque outras epidemias virão. Isso precisa ser apropriado pela escola. 

Precisamos fazer disso conhecimento, produzir conhecimento sobre isso, entender porque a vacina é importante e porque que todos têm que se vacinar, senão, não adianta. E por que tem que vacinar rapidamente, porque que também não adianta se não vacinar rapidamente. E aí entra a perversidade do desgoverno, ficamos atrasados na compra e no uso da vacina, e com menos vacinas do que são necessárias. Isso precisa ser estudado e debatido, para que a gente saiba cobrar e exigir, e não fique só no discurso: “só saio se eu for vacinado”, porque isso não sei se será possível. Estamos vendo aí, não tem vacina no mundo para todo mundo, estamos vendo a corrida de todos os países. Então, é preciso apropriar-se desses conhecimentos de uma forma crítica, que nos possibilite sermos cidadãos mais atuantes, para que possamos exigir nossos direitos como cidadãos e cobrar um governo responsável, para nunca mais termos o que estamos tendo. 

Seria esse o caminho pedagógico a seguir para um retorno, além de seguro, com qualidade? Discutir a realidade com as crianças e adolescentes?

Isso, os conteúdos precisam ser revistos. Manter os conteúdos, como se nós não tivéssemos passado por um tsunami, como se pudéssemos discutir tudo que estava sendo estudado antes, considero até uma alienação. Então, é importante trazer questões, importantíssimas, para a gente discutir o papel da desinformação, das fake news, como é que uma pandemia se propaga, como é que se enfrenta uma pandemia, pois teremos outras. Estudar os vírus, que tem nos acompanhado ao longo da vida – porque, de repente, alguns desses vírus se transformam e produzem efeitos variados? Teve H1N1,  tem o HIV Aids,  vários outros.  

A possibilidade é que o coronavírus continue aqui conosco, mudando, ele vai se transformando. Podem vir outras mutações que ainda não conhecemos,  já temos a de Manaus (AM), a do Reino Unido. Então, tudo isso é objeto de estudo para a escola, de interrogação, de curiosidade. Como é que a gente pode se organizar para enfrentar essas coisas? O papel da vacina, a vacina está chegando e a mentalidade é que ela é uma bala de prata – tomamos a vacina e  ficamos bons. Não é assim. Então, estudar essas coisas na escola é importante para construir um comportamento mais respeitoso em relação à própria ciência do conhecimento.