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Volta às aulas? Com a escola como equipamento essencial da comunidade

Cercada por muros e moldada por concepções que já completaram mais de dois séculos, a escola, como ícone mor da Educação formal, está sendo colocada em xeque diante dos desafios impostos pela Pandemia do COVID_19. Nesse contexto, ao discutir a abertura ou não das escolas, o assunto precisa ir para além dos portões e protocolos de saúde, pois a educação não se resume a ensino dos componentes curriculares e escola é lugar de formação integral, de convivência com o outro, de reconhecimento da diversidade, de formação cidadã. E isso não acontece pelos equipamentos, apenas. Esta é a essência do que vem defendendo a Avante – Educação e Mobilização Social ao longo de 25 anos, e agora mais do que nunca.

Na primeira de uma série de entrevistas, Maria Thereza Marcilio, presidente da Avante, fala sobre abertura das escolas: Por que abrir em meio a uma pandemia? Em que condições? Qual o papel de cada integrante desse quebra cabeça (governos, gestores, professores, comunidade, famílias)? E as crianças e adolescentes? Como saber o que pensam e sentem? O que priorizar para um retorno, além de seguro, com qualidade? 

O Brasil já é o país do mundo com mais tempo com suas escolas fechadas. Qual a principal consequência desse fato?

As consequências de ter um ano letivo inteiro com escolas fechadas são imensas. Quero fazer a ressalva de que escola fechada não significa, necessariamente, que não tenha havido algum tipo de trabalho, porque a gente sabe que houve. Na rede pública algumas conseguiram fazer um ensino remoto, seja com aparelhos tecnológicos, seja com envio de atividades escritas, seja com envio de cestas básicas, ou com contatos frequentes com as famílias para manter vínculos. As escolas particulares, pelo menos as grandes, conseguiram manter esse ensino remoto. Mas isso não é a realidade para todo País, eu diria que é realidade para uma minoria. 

No entanto, a maioria das escolas, principalmente da rede pública, mas também da rede privada, não teve condições, seja de realizar ensino remoto com a tecnologia, seja de ensino remoto com envio de atividades. Os motivos são inúmeros: famílias que não tiveram como ser contactadas; famílias que tiveram que se virar para sobreviver; que tiveram que correr atrás e que não tinham como supervisionar as questões da escola; e, de fato, escolas que não atuaram, sistemas que simplesmente fecharam as escolas. As consequências são enormes, desde a quebra do vínculo, o afastamento da criança e do adolescente dessa rotina; a possibilidade enorme de evasão, principalmente dos adolescentes e jovens. Perda da proteção; perda da alimentação escolar, que para muitas, muitas crianças é o lugar da boa refeição; perda do contato com a diversidade com os outros colegas; das oportunidades de brincar, de socializar. Temos ouvido relatos de ansiedade, transtorno no sono, violência doméstica, que aumentou muito, e violência comunitária. As crianças, cujos pais saem e não tem com quem deixar, estão nas ruas. Então, há um conjunto de fatores que mostram um problema que vai se avolumando e que é de uma complexidade muito grande para ser resolvida. 

Entre os persistentes receios de todos, mas em especial das famílias, a reabertura das escolas é imprescindível? Por que? 

A meu ver, é imprescindível. E quando falo em reabertura, não estou falando em retorno e volta às aulas, na verdade isso, para mim, deixa de ser a principal preocupação. A preocupação curricular de “as crianças estão perdendo aprendizagem”, não!.  As crianças continuaram vivas e têm aprendido muito, seja sobre a pandemia, seja sobre relações, seja sobre tudo que elas estão vivendo. Nós todos aprendemos muito esse ano. A falta da aprendizagem curricular é algo que pode ser compensado, e talvez o currículo de hoje seja exatamente entender a pandemia, entender as relações, entender solidariedade, com comportamentos de empatia, e para isso a escola precisa ser reaberta, não para voltar ao que era, até porque o que era não agradava muito nem aos professores, nem aos próprios estudantes. Vejam os adolescentes que reagem ao modelo de escola que a gente tem, que é um modelo muito enquadrado, muito fechado, com muros, com uma distância da vida, uma distância da realidade. Então, a pandemia traz essa oportunidade de trazer a vida para dentro da escola, de quebrar muros, literalmente, de abrir janelas, literalmente, de usar espaços abertos, literalmente. Porque não é possível conviver em espaços confinados com muitas crianças, de diminuir os grupos, de diminuir as aglomerações dentro da escola. É importante reabrir para acolher, para escutar, para saber como estão as crianças e os adolescentes, como estão os profissionais todos, os professores, coordenadores, gestores, merendeiras, porteiro, para saber como passaram esse período, como estão as famílias, como está aquela comunidade. Então, a escola é um equipamento essencial da comunidade.

Em que condições isso deveria acontecer? 

Nas condições que possam preservar vida, saúde e educação, que são direitos básicos de todos nós, garantidos pela constituição. Então, não é abrir de todo modo, em qualquer condição, é reabrir onde, como, para quem, com quem?  Essas perguntas tem que ser respondidas e tem que ser respondidas localmente, isso não é uma decisão e não pode ser uma decisão nacional única, não pode ser uma decisão estadual única, não pode ser uma decisão municipal única. 

Um município vivencia várias condições dentro da própria pandemia. Tem bairros em que os índices estão mais elevados, tem bairros mais controlados. Então, tinha que ser uma decisão a cargo de cada unidade, a partir de uma orientação do órgão municipal e do estadual, já que do Federal a gente não conta, pois o Federal não organiza, muito pelo contrário, desorganiza, desorienta, prejudica. Mas no nível estadual e no municipal deveria haver uma orientação no sentido de formar comissões – aa secretarias da educação, de saúde, de transporte, de assistência social, de cultura, de esporte e lazer, juntas para avaliar o estado e o município, mapear esses territórios, e junto com comissões escolares, que devem ter representação da gestão, dos professores, coordenadores, merendeiras, porteiros, pessoal: técnico, de serviços gerais, das famílias, dos estudantes, junto com o órgão local de saúde, o órgão local de proteção e assistência, que são os conselhos tutelares dos CRAS, CREAS, as unidades de saúde local e os agentes comunitários de saúde. 

Todos tinham que ter uma representação para analisar as condições escolares, aquela comunidade. Para saber como estão as famílias, como estão cada um dos professores, dos profissionais, se a escola, fisicamente, tem condição de abrir, se não tem, o que é preciso fazer, se tem água, se tem os equipamentos de proteção e limpeza, se tem janelas abertas, se tem espaços de parque de que as crianças e os adolescentes possam usar, se tem praças próximas, que a população da escola possa usar para atividades pedagógicas, caso a escola não tenha espaço. Deveriam estar pensando em novos agrupamentos, novas formas de se organizar dentro da escola em termos de espaço, de tempo, e de conteúdo. Nessas condições, nós poderíamos ter muitas escolas abertas, muitas, não são poucas, muitas e com condições de assegurar saúde, vida e educação para todos.