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O ser humano só é inteiro quando brinca e tem garantidos seus direitos

Uma senhora de cabelos brancos, mas com espírito de criança, nos conduziu no túnel do tempo para uma época em que o brincar exigia apenas a disponibilidade dos corpos. Época em que os brincos e cantigas de roda davam o tom da diversão entre a garotada. A menina, Lydia Hortélio, 87 anos, nasceu em Serrinha, semiárido baiano, mas ganhou o mundo ao estudar a relação entre a música e a cultura da infância. Uma das principais vozes brasileiras na pesquisa etnomusical da infância, Lydia afirma que a brincadeira é a “essência do ser humano”.  Em sua participação, como convidada especial da 9ª edição da Web Série Conexões – uma iniciativa da Avante – Educação e Mobilização Social, ela dialogou com Ana Marcilio, consultora associada da Avante e especialista no direito ao brincar, com mediação de Maíra D’Oliveira, psicóloga também integrante da instituição.

Ao longo de uma hora Lydia encarnou o encantamento do brincar, mas foi enfática ao desferir: “Hoje, os meninos não brincam mais (…) O ser humano só é inteiro quando brinca”. Enquanto, Ana Marcilio, como numa grande brincadeira de roda, dava o tom dos direitos, que devem ser garantidos no dia a dia de toda crianças: “Se a gente sabe que o brincar é cultura e cultura é direito, então o brincar é direito”, disse Ana.

“No meu tempo, eu tinha um único brinquedo de mão”, lembrou Lydia, que traz em seu vasto currículo a catalogação de 550 cantigas, brinquedos da época de sua infância querida que eram cantados em Serrinha, pesquisa que ela diz estar inconclusa devido à riqueza musical do interior do País. “Não é nem a ponta do alfinete no mapa do Brasil”, arrematou. Muitas cantigas foram transcritas em partituras a partir de investigações, inclusive de pessoas de seu círculo social, como a septuagenária tia Alice, à época em que fez um levantamento de 132 cantigas registradas na memória de sua tia – que conseguiu resgatar em sua pesquisa. “Hoje, não tem mais ninguém que cante uma cantiga de ninar. É raro, raríssimo, encontrar alguém que cante nem [mesmo] o “Boi da Cara Preta”, disse em tom de desconsolo.

A invenção da televisão na década de 20 – que somente em 1950 teve seu início comercial no Brasil, com a inauguração, em 18 de setembro, da TV Tupi, em São Paulo – foi apontada por Lydia como um divisor de águas na cultura da infância, principalmente com a chegada das telenovelas. “Os meninos deixaram de brincar uns com os outros para ficar vendo as novelas. E ainda hoje estamos colhendo os malefícios dessa história”, disse. Essa afirmação foi feita justamente quando a TV brasileira comemora seus 70 anos de existência.

Apesar de vivermos na era da cultura digital, a educadora baiana mostrou-se otimista em relação ao que está por vir. Ela citou a pandemia, por exemplo, como um divisor de águas para a construção de “um mundo novo”: “Era um castelo de plástico. Caiu. Não vai ser mais assim. Nós temos descoberto que nós temos uma alma. Eu tenho esperança do que está pra vir. O medo é um péssimo conselheiro. Eu tenho esperança e deixo os meninos colocarem tudo abaixo”, disse em tom de brincadeira.

Para Lydia, a vida é um eterno brincar, independente de quantos anos se tenha vivido. “Eu acho que é o comportamento humano por excelência. O homem só é inteiro quando brinca”, sentenciou a baiana de Serrinha. “Minha infância foi de muita brincadeira na rua, tenho 40 anos de muita vivência no brincar e a natureza é o maior brinquedo que tive na vida, fui muito feliz. Lydia, você é maravilhosa”, testemunhou via chat do webinar, Simone Arias

Corpos adultos disponíveis para o brincar

As palavras de Lydia Hortélio ressoaram como um acalanto de ninar em Ana Marcílio, que lembrou saudosista diante do público as cantigas que sua mãe, Maria Thereza Marcilio, cantava para ela. Apesar de não ter os cabelos clareados pela passagem do tempo, nem tantas marcas de expressão em seu rosto, Ana se harmonizou com as palavras de Lydia, a quem denota grande admiração e bebe na mesma fonte da defesa do brincar pelas crianças como um direito.

Na avaliação de Ana, um dos principais desafios da contemporaneidade é a disponibilidade dos corpos adultos para o brincar diante do mundo cada vez mais digital, onde “as telas” – do computador, do smartphone ou mesmo do tablet” nos conectam ao mundo do trabalho, mesmo em momentos de lazer. “Tem uma coisa fundamental no brincar que é o tempo. A gente precisa ter tempo. E, muitas vezes, a gente está em casa sem estar. Na tela, a gente entra no trabalho. É preciso abrir espaço na nossa vida para o brincar. Muitas vezes, a gente não consegue escutar e aceitar o convite que a criança faz sem parar: ‘vamos brincar?’”, ressalta Ana.

Além do brincar em casa, Ana lembrou que é preciso ampliar o olhar para os espaços públicos e as escolas no sentido de se garantir uma infância com brincadeiras, diversão e muitos aprendizados. Ela citou um projeto da Avante (2006), no Calabar, bairro periférico de Salvador, onde o brincar foi a estratégia utilizada para mobilizar as crianças da comunidade na defesa pela infância, combate à violência e garantia de direitos.  E, na ocasião, uma praça pública local, então abandonada, foi transformada em um espaço vivo e pulsante. “É preciso garantir na cidade, nas escolas, em nossas vidas, tempo e lugar para o brincar”, disse.

“Bem isso, Ana! Estamos nos cobrando muito a dar resultados. E não conseguimos mais escutar o pulsar da vida!”, concordou Rita de Cácia da Silva, em mensagem enviada via chat durante o webinar.

Nas considerações finais, Lydia Hortélio deixou para o público a seguinte mensagem: “Vamos ter esperança, vamos nos dar as mãos. Então, abra a roda Tin Do Lê Lê”.

 

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A 9ª edição da Web Série Conexões teve como tema “Brincar, um direito de toda criança (#30anoECA)” e foi a terceira, promovida pela Avante, a fazer provocações sobre o Direito de Brincar. Para assistir a gravação, clique aqui. A mediação foi realizada pela psicóloga Maíra D´Oliveira que trouxe importantes contribuições para a discussão.

Conexões – A Web Série Conexões é uma iniciativa e realização da Avante – Educação e Mobilização Social para conectar profissionais da Educação durante a pandemia do Covid-19.  O episódio “Brincar, um direito de toda criança (#30anoECA)” foi ao ar no último dia 17 de setembro. Mas, quem não pôde assistir esta e edições anteriores pode acessar a playlist criada no canal do YouTube da Avante (www.youtube.com/avanteong).