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Não é sobre escolha. É uma questão de direitos!

Por: Andréa Fernandes, jornalista, coordenadora do setor de comunicação Avante

 

Eu sou jornalista, comunicadora, mãe atípica (de um filho atípico – deficiente) e militante social. Sou um bocado de coisas, assim como cada um/uma o é, cada qual a partir de suas escolhas. Mas, escolhas para mim sempre vieram repletas de reflexão, banhadas de empatia. Não é, nem nunca deveria ser, uma questão de certo ou errado – de julgamentos. É uma questão de parar para analisar detalhadamente sobre o assunto, sobre si próprio ou sobre seu sentimento e ser responsável por eles e suas palavras.

Desde que vi a afirmação – “Não é sobre escolhas, é sobre direitos”, num post do Instituto Alana, que tem feito uma importante campanha informativa sobre a inclusão, tenho-a, mesmo sem muito perceber, em minha mente. As reflexões chegam…

Minhas últimas palavras públicas sobre o Decreto 10.502, que legaliza a exclusão no nosso já tão contraditório País, foram bombardeadas com expressões feias, defesa de segregação, e apoio aos autores desse contexto absurdo – para nós, que esperançamos a existência de um mundo melhor. Foi difícil acompanhar essas reações, como me cabe enquanto consultora associada da Avante – Educação e Mobilização, profissional responsável pela comunicação, mas, principalmente como mulher, mãe e cidadã.  Claro que já testemunhei alguns de nossos posts sendo bombardeados, em especial aqueles que defendem princípios democráticos e uma Educação de qualidade, mas nesse, para além das palavras agressivas, saltaram-me aos olhos o quão carentes de reflexão e empatia são vários argumentos. Nestes, não há uma agressividade “aparentemente” gratuita, mas há a expressão genuína das dores que estão levando as pessoas a agir contra si mesmas, acreditando estar do “lado do bem”. E para mim, se não pode haver julgamento, não deve existir bem e mal, mas consistência de ideias.

Um/a internauta, por exemplo, entrou no meio de uma discussão política para extravasar sobre as suas difíceis experiências com a inclusão no nosso País: “Segregação é o que tenho sentido na pele, como mãe neuroatípica. Essa ‘Inclusão’ que pude usufruir, essa sim segrega, no máximo vivi adaptação nas escolas mais dispostas. Inclusão verdadeira, nunca vi ou vivenciei. Se alguém aqui conseguiu, ótimo, porém não foi minha realidade e nem de outras centenas de mães que conheço.  Sou a favor, sim, de que cada família opine e tenha o direito de escolher o que é melhor para sua realidade, seja escola especial, normal ou homeschooling. Essa lei é só uma opção, não imposição. E não venha me falar que teremos coordenação sugerindo matrícula em outras escolas, porque isso já acontece há muuuito tempo!”

Foi preciso parar (o que tem sido um desafio no nosso mundo, mesmo em isolamento) para perceber que essas palavras haviam ficado presas na minha memória. Então, um dos amigos com quem compartilhei o post do meu texto iniciou uma breve conversa comigo e ele me trouxe estas outras reflexões: “É um momento em que a consciência coletiva está voltada para baixo. O egoísmo é a força reinante. Egoístas no poder alimentam o egoísmo de quem não tem forças para ver além do fim do mundo, que se pinta como ferramenta política. Sim, dizer o que se pensa sem exame, sem cuidado, sem compreensão e sem amor é uma das consequências desse momento. Força e paciência são necessários. Tentar não sentir os sentimentos ruins que aquelas atitudes transmitem é o grande heroísmo do momento”. E sua última frase bateu, no dia das crianças, naquela meninice interior que sonhava em ser heroína.

Então, voltei às palavras daquele/a internauta e fui capaz de perceber a sua dor. Uma dor que eu também sinto, mas que a muito custo, trabalho para me manter esperançando. O que ela diz é real. Cada afirmação feita pelas famílias atípicas é uma realidade vivenciada, é fato. Exceto a seguinte: “Essa lei é só uma opção, não imposição”, disse. E foi aí que a gente se pegou nas ideias. Não é uma questão de escolha, mas de garantia de Direitos Humanos básicos – o “justo direito” dessa mesma escolha que é defendida.

Hoje, sim, a família pode escolher, mas a instituição NÃO! Ela precisa estar aberta, ao menos. Preparada cada vez mais, a cada dia, por força da necessidade, que seja. O sistema precisa olhar firme na formação de cidadãos livres, pensantes e reflexivos, capazes de fazer escolhas. As escolhas precisam estar à disposição. O que esse decreto vem firmar é o direito do sistema de dizer NÃO.

Eu concordo quando é dito, “não venha me falar que teremos coordenação sugerindo matrícula em outras escolas porque isso já acontece há muuuito tempo!”. Sim, acontece, na maioria das vezes de forma velada. Mas nós conseguimos arrombar a porta. Há mães que, literalmente, fizeram isso, por meio da Justiça – DA LEI – e uma vez lá dentro trabalharam, e muitas vezes lutaram, contra/junto com o sistema para melhorá-lo. Muito atrito, laços fortalecidos, laços rompidos, mas sempre, sempre, a busca por tirar da acomodação a si, e ao outro.

Famílias que vieram antes de nós conseguiram, ao menos, a permissão para estar dentro das instituições. Agora o trabalho é ir para frente. E todo caminho tem suas dores. Isso não é motivo para recuar. Ofereço, então, as palavras deste texto, e destaco três pontos: o primeiro, que o Decreto não tem nada a ver com homeschooling, entre as três opções dadas, a terceira é são as escolas bilíngues (pensando na língua de sinais para os surdos, por exemplo). É possível escolher a vida privada como caminho e isso é legítimo, defendo que seja um direito, mas esta é uma luta paralela.

O segundo ponto é que o trabalho por uma Educação de qualidade, acolhedora e que prepare para a vida, PRECISA continuar, prosseguir, andar para frente, para melhorar, e não retroceder. Por fim, a terceira é que, caso esse Decreto prevaleça, o orçamento para que avancemos em direção a uma sociedade realmente inclusiva será retirado da luta por um melhor preparo das escolas regulares para a inclusão, sendo revertido para essas “instituições especiais”, provocando mais insegurança, ainda, em relação às primeiras, empurrando as crianças para as escolas especiais, deixando a todos/as sem escolha.

Mesmo aqueles que fizerem, ou já tenham feito, a opção consciente pelas escolas especiais, não terão caminho de retorno quando a ficha cair de que o desenvolvimento de sua criança depende da convivência com as diferenças, como depende o desenvolvimento de qualquer outra criança.