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Diversidade e potencialidades na avaliação na Educação Infantil

A  “Avaliação na Educação Infantil” foi tema da Websérie Conexões, na última quinta (27). O debate, mediado pela consultora associada da Avante – Educação e Mobilização Social e Doutora em Educação Infantil, Mônica Sâmia, tendo como palestrantes Maria Thereza Marcílio, presidente da Avante, pedagoga formada pela UFBA e mestra em Educação pela Harvard, e Sílvia Cruz, Mestra e Doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

Mônica,abriu o diálogo com uma importante reflexão sobre avaliação e julgamento: “O que pensamos quando ouvimos a palavra avaliação? A primeira coisa que passa pela minha cabeça ao escutar essa palavra é ‘julgamento’”. Para Maria Thereza, ela tem razão, já que fomos formados para enxergar o que falta. E a avaliação, além de nos comparar, cria parâmetros que buscam a homogeneização dos indivíduos, o que não é correto“. Ela lembra que, no dia a dia, a avaliação traz dificuldades para enxergar o indivíduo, a criança. “Nós não temos um sujeito igual ao outro. A diversidade faz parte da constituição humana. Não somos iguais nas nossas potências, desenvolvimento,aparência, nem no jeito de ser. É difícil comparar, cada criança é uma criança”, disse a presidente da Avante. 

“A gente não pode falar da avaliação da criança, na Educação Infantil, sem ter em vista o contexto que elas estão sendo atendidas – creche ou pré-escola. E esses contextos são muito impactados pelas políticas de Educação Infantil, está tudo muito interligado”, disse Silvia Cruz, que também lembrou não estar na nossa cultura, ainda, uma avaliação dessas políticas.  E, sendo assim, deixando um pouco a avaliação das políticas para um outro momento, ao falar em avaliação na Educação Infantil, ela lembra que as instituições devem criar procedimentos para acompanhamento do trabalho pedagógico e para avaliação do desenvolvimento das crianças, sem objetivo de seleção, promoção ou classificação, garantindo uma observação crítica das atividades, das brincadeiras e interações das crianças no cotidiano. “A observação faz parte do trabalho do professor, essa observação deve ser registrada, deve ser alvo de uma reflexão, de interpretação e de busca de melhorar cada vez mais o trabalho pedagógico com essa criança”, disse.

Silvia Cruz destaca a importância da escuta das crianças no processo avaliativo, garantindo a sua participação. “As crianças têm direito à participação. Elas devem e precisam participar dos processos de avaliação ativamente”, disse. Maria Thereza complementa que deve-se olhar para a criança como uma força, uma potência, com escuta ativa e cuidadosa, o que possibilita uma melhor observação.  “Se, como adulto, você olha uma criança que está começando a viver, possivelmente só enxergará falta nela, porque o parâmetro que está usando é o seu”, reforçou. 

A Educação é um serviço público, um direito de todos e deveria abarcar as diferenças, a amplitude de contextos e experiências sociais. Por isso, para Maria Thereza, antes de tudo, o que deve ser avaliado é se a Educação Infantil está cumprindo a sua função de oferecer a todas as crianças condições para que cresçam, aprendam e se tornem cada vez mais potentes. “O primeiro ponto de avaliação, antes de pensar em avaliar a criança, é avaliar a oferta da Educação. O que estou oferecendo? Estou dando condições para essa criança se desenvolver? Estou oferecendo o melhor ambiente, os materiais necessários, os professores formados e com condições de atender? Está sendo oferecido espaço para que ela cresça, brinque, interaja? Estou oferecendo escuta e as melhores práticas possíveis?”, ponderou Maria Thereza. 

Para as palestrantes, a escola não é o lugar do limite, de dizer “você deve ir até aqui e se não foi deve repetir”. “A vida é um contínuo. E a escola é o lugar onde devemos identificar os potenciais, não o lugar que vai comparar”, reforçou Maria Thereza e reafirmou que a única avaliação possível é a que compara o indivíduo apenas consigo mesmo para identificar necessidades específicas.

A diferença é aqui encarada como algo positivo e a doutora Silvia concorda que a avaliação deve nos trazer elementos para pensar sobre a prática pedagógica, para favorecer o desenvolvimento das crianças. E lembra que os indivíduos são diversos, com ritmos e interesses diferentes. “Não existe – a criança. Elas são múltiplas e diferentes. Como é possível ter um padrão rígido e comparar cada criança a esse padrão? Não é possível, é injusto e reduz nossa visão das crianças”, ressaltou. 

Conexões – A Websérie Conexões é uma iniciativa e realização da Avante – Educação e Mobilização Social para conectar profissionais da Educação durante a pandemia do Covid-19. Acesse aqui para assistir o episódio na íntegra e se tiver interesse pode conferir os episódios anteriores da Temporada 01 e da Temporada 02 no canal do YouTube da Avante.