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Oficina de cartazes promove participação infantil na Baixa do Tubo

O que as crianças têm a dizer à sua comunidade? Como podem participar do cuidado com a praça e outros equipamentos públicos a que têm acesso? Como transformar a brincadeira em estratégia de escuta e participação?

Na comunidade da Baixa do Tubo, em Salvador (BA), esses questionamentos foram respondidos com uma oficina de cartazes. A estratégia mobilizou as crianças para refletir – de forma lúdica, criativa e política – sobre o principal espaço comunitário onde se reúnem para brincar – a praça do Sucuiú.

A oficina proposta pelo projeto Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do tubo do Coqueirinho compreendeu, pelo menos, três aspectos do direito à liberdade, dispostos no artigo 16 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O primeiro refere-se à liberdade de opinião e expressão. Durante a oficina, as crianças puderam desenhar e escrever com liberdade o que queriam comunicar às outras crianças e à comunidade.

As convocatórias expressas nos cartazes das crianças, como: “Vamos cuidar da praça, juntos”; “Não deixe lixo no chão”; “Ajude a praça a ficar bem limpinha”; “Povos do lugar, criança, venha brincar na praça”, revelam a preocupação dos meninos e meninas com o espaço público e o valor que imprimem ao brincar livre e coletivo – resultados de uma construção que vem se desenvolvendo desde a chegada do Projeto à comunidade.

“Antes de fazer qualquer intervenção, nós observamos a dinâmica do território e das crianças. Então, entendemos que alguns princípios precisavam ser cultivados ali, e um deles era o cuidado com o ambiente da praça. Além de diálogos sobre o zelo pelo espaço, nós compramos vassouras para iniciar um ritual de limpeza antes da brincadeira e vimos eles despertarem para isso”, compartilhou Igor Sant’Anna, mobilizador territorial brincante do Foco nas Infâncias.

Esse ritual, iniciado pelos mobilizadores do Projeto, transformou-se voluntariamente em um compromisso das crianças com a praça, uma aprendizagem adquirida pelo exemplo. Hoje, elas se sentem responsáveis por essa tarefa, providenciando a limpeza do espaço antes mesmo da equipe chegar ao local.

A apropriação do espaço público é sempre uma das tônicas dos projetos desenvolvidos pela Avante nos territórios urbanos, por isso, as atividades de intervenção e transformação dos equipamentos que compõem esses locais partem do pressuposto de que “o espaço público é um espaço de intervenção política, de apropriação política e cultural, de interconexão e vizinhança”, como destaca Ana Marcilio, consultora associada e diretora de sustentabilidade da Avante.

O espaço público, segundo ela, é o lugar das identidades geopolíticas e locais. “Num poste, por exemplo, é fácil encontrar um cartaz de cartomante, de conserto de sofá. Então, nós trabalhamos a partir das expressões públicas que reconhecemos no território”, reiterou Ana, que coordenou projetos no Calabar e Nordeste de Amaralina, onde foram desenvolvidas iniciativas similares à dos cartazes, como a construção coletiva de mapas e oficina de lambe-lambe, que resultaram na reforma de duas praças comunitárias e organização do espaço para brincar. 

Os outros dois aspectos do Artigo 16 contemplados com a experiência dos cartazes na praça do Sucuiú foram: o direito à participar da vida comunitária e da vida política. 

Promover experiências para que as crianças possam se expressar é uma estratégia importante para garantir a sua participação. Ao se envolverem na oficina, as crianças demonstraram compreender-se parte da comunidade e corresponsáveis pelo cuidado da praça – chaves importantes de participação política e comunitária. 

De forma estratégica, a brincadeira transformou-se numa experiência participativa para as crianças e numa oportunidade importante de escuta para o Projeto, as famílias e a comunidade. 

“Se a gente pensasse e ouvisse as crianças, as cidades seriam mais amigáveis, mais bonitas. Elas veem mais o lixo do que a gente vê, veem mais coisas danificadas do que a gente vê, veem o abandono, seja de pessoas ou de objetos. Então, para que se garanta políticas públicas planejadas junto com elas, temos que aprender a escutá-las”, explica Maria Thereza, consultora associada fundadora da Avante.

As proposições e manifestações das crianças sobre as suas expectativas para a praça do Sucuiú revelam que elas não são e não estão alheias às problemáticas sociais que incidem sobre os seus contextos e comunidade. Promover oportunidades de diálogo e escuta consiste, assim, num exercício relevante de formação e participação política para as crianças.

Foco nas Infâncias é um projeto realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a kindernothilfe (KNH).

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