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Jogo de cartas positiva personalidades femininas em retorno do projeto Foco nas Infâncias 

Quando a misoginia ganha espaço na internet e inicia um movimento sexista e violento que não exime as crianças, positivar a trajetória de mulheres revolucionárias, por meio de jogos e brincadeiras, é uma necessária e pertinente estratégia.

Foi assim que o projeto Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho retomou as atividades com as crianças na praça do Sucuiú, na semana em que se comemora o Dia Internacional das Mulheres.

A primeira roda interativa com as crianças não poderia ter começado com um recurso melhor. O jogo de cartas Raízes: A Conquista das Mulheres na História do Brasil foi um mobilizador de descobertas, reflexões e diálogos.

O dispositivo brincante e educativo, levado por Kuia – Anna Cristina Prado –, mobilizadora territorial do projeto, contém 40 cartas com imagens e informações de mulheres que fizeram a diferença no país, e outras 16 com dinâmicas para interação em grupo. As cartas apresentam a diversidade étnica e potencial de mulheres brasileiras que, em diferentes áreas, contribuíram para o desenvolvimento de um país mais justo. 

“Bia, 10 anos, chegou e resolvi brincar com ela de abrir o baralho. Eu falei: escolhe uma carta para vermos o que vai sair”. Saiu Nise da Silveira. Então, conversamos um pouco sobre o trabalho revolucionário dessa médica psiquiatra que ela nunca tinha ouvido falar. Eu expliquei: “essa mulher aqui é muito legal. Ela levou a arte e a expressão para pessoas que faziam tratamento de saúde mental, numa época em que o tratamento ainda era muito violento”, compartilhou Kuia sobre o início da brincadeira.

A carta de Nise, segundo a mobilizadora, foi um gancho para discutirem o capacitismo, disfarçado de bullying, que acomete muitas pessoas com deficiência, em especial aquelas que possuem transtornos cognitivos. “Eu tentei costurar um pouco desse baralho com a vivência na praça, com situações que nós percebemos e identificamos”, compartilhou a mobilizadora.

Segundo Kuia, durante o diálogo, as três participantes do jogo riram, como se identificassem experiências próprias ou de colegas, mas depois reconheceram que apelidos relacionados à deficiência é uma atitude desrespeitosa e capacitista.

“Elas ficaram super curiosas com as outras cartas. Então, decidimos brincar de cada uma tirar uma carta. Depois, chegaram outras crianças que viram e quiseram participar. Eu entreguei metade do baralho para que elas interagissem e conhecessem mulheres importantes da nossa história”, disse Kuia.

Por meio do baralho educativo, as crianças tiveram a oportunidade de descobrir diversas brasileiras que revolucionaram as artes, a política, a medicina, a educação e outros campos sociais. Ao conversarem, por exemplo, sobre as cartas de Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, e de Daiara TuKano, artista visual, o grupo pôde ampliar o repertório sobre povos indígenas e descobrir a força de mulheres que ousaram ocupar lugares de destaque fora das suas aldeias. 

“Essa possibilidade de brincadeira é muito legal, porque a gente descobriu uma grande quantidade de pensadoras negras e indígenas, por meio da leitura das cartas”, ressaltou a mediadora do jogo.

As participantes da brincadeira sugeriram organizar o jogo por rodadas, de forma que todas pudessem tirar uma carta e compartilhar as informações e imagens com o grupo. Ao final do jogo, as cartas foram separadas de acordo à etnia ou raça da personagem. Estratégia que, conforme Kuia, “foi importante, porque as meninas puderam atentar para as figuras com mais tempo de reflexão para cada uma delas”, e acrescentou, “além disso, eu pedi que elas identificassem e mencionasse o lugar social da personalidade junto ao seu nome, exemplo – pensadora negra e o respectivo nome -, para trazer essa positivação da raça, da etnia e do gênero”, explicou. 

A brincadeira atende a um dos objetivos do Foco nas Infâncias, que é estimular a construção de repertórios relacionais promotores de igualdade racial e de gênero entre crianças e adolescentes e entre elas e seus cuidadores.

“Por meio da brincadeira a gente vai trabalhando essa positivação da mulher, a partir da história das mulheres e da possível identificação dessas meninas com essas personalidades”, declarou Kuia, que concluiu o relato com uma partilha inspiradora: “Bia viu que uma das mulheres das cartas era ativista e me perguntou o que isso significava. Depois que expliquei, ela afirmou: que legal, eu quero ser ativista”, compartilhou a mobilizadora, orgulhosa.

Diante da escalada de feminicídios e de violência contra a mulher, que vem afetando a educação e o comportamento de crianças e adolescentes, encontrar possibilidades de reeducar meninos e meninas com diálogo e ludicidade é um movimento urgente e indispensável.

O jogo de cartas Raízes: A Conquista das Mulheres na História do Brasil é uma criação de Ana Rita Mayer, educadora e cientista social, produzida pela Lagarta Criações. O baralho é um excelente recurso para celebrar a diversidade em escolas, projetos sociais, reuniões familiares e outros círculos sociais.

Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho é um projeto realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a @Kindernothilfe (KNH).

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