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Filme Joias de Oxum é exibido no 21º Festival Panorama Coisa de Cinema

“Foi incrível ver o filme no cinema. Na época da gravação eu tinha uns 10 anos, tudo era muito diferente. Lembro que fiquei com vergonha de gravar, mas ficou muito bom”, declarou Luiz Otávio, protagonista do curta Joias de Oxum, exibido em Salvador (26 e 31/03) e Cachoeira (26/03), no 21º Panorama Brasil Coisa de Cinema. 

Na telona, ainda crianças, as joias encenavam um movimento infantil na luta pelo direito ao brincar. Quatro anos depois, em uma sala de cinema com centenas de espectadores, os adolescentes puderam se ver e relembrar aquele 21 de maio de 2022, quando a Ocupação Quilombo do Paraíso se transformou em locação cinematográfica.

Joias de Oxum, portanto, além de ser um filme produzido e protagonizado por crianças do Movimento sem-teto da Bahia (MSTB), é também o resultado de cinco anos de intervenção do projeto Estação Subúrbio: nos trilhos dos direitos, realizado pela Avante – Educação e Mobilização Social, em parceria com a kindernothilfe (KNH), no Subúrbio Ferroviário de Salvador.

“Desde a demanda até o formato final, as crianças queriam um filme com elas e feito por elas. Mais do que aparecer, elas participaram de todo o processo cinematográfico. E o resultado disso na tela, com o acolhimento de uma plateia infantil, é sensacional. Deu para ver que o filme não precisa de explicação, está tudo posto, porque faz parte da vivência das crianças. E o melhor, fez muito sentido para todos, não um sentido cognitivo, mas um sentido do que é o sensível para quem estava assistindo”, declarou Ana Marcilio, diretora de sustentabilidade da Osc Avante e coordenadora do Projeto, à época.

Cauane, que se aproxima agora dos 18 anos, afirmou que participar do filme e assisti-lo com um público desconhecido “foi uma super experiência, porque se ver e observar todo mundo se vendo, batendo palma, foi muito bacana”. Yasmin, 17, fez um relato similar, mas destacou as mudanças ocorridas com o tempo. “Eu mudei bastante. Eu ri quando me vi. Lembro que todos nós achamos muito legal quando o pessoal do Projeto disse que gravaríamos um filme”.

Panorama Brasil 1

O curta compôs a programação Panorama Brasil 1 com outros quatro filmes: Quando as ondas do mar desligam; Baú; Camilly quer ser cantora de ópera; e Buzu, o curta. 

“De todos os filmes, o que eu mais gostei foi o meu”, adiantou Christian Silva, que tinha apenas 6 anos quando participou da gravação do Joias de Oxum. “Você me viu, tia?” perguntou ele, e afirmou em seguida, “eu fiquei alegre quando me vi na tela”. 

Embora os cinco filmes do bloco 1 tenham apresentado crianças em contextos diferentes de opressão social, o que saltou da tela foi a expressão resiliente de grupos sociais que se apropriaram da arte como ferramenta de luta e visibilidade.

“O que a gente viu nos diferentes filmes foi força, poder, imaginação, criatividade, fantasia, arte, cultura e alegria. Mas essa luta começa lá atrás. Hoje, para além do movimento negro, as pessoas entenderam que alegria, cultura, samba, sorriso, é enfrentamento, resistência, é também lutar por direitos”, analisou Ana Marcilio, que compartilhou a sua experiência com o Joias de Oxum. “São seis minutos de filme. Então, deu pra rir, chorar, me encantar, principalmente por ser o fechamento de um ciclo. Esse foi um Projeto longo, desafiador, e só faltava as crianças no cinema, se vendo na tela. Eu me emocionei nas duas exibições”.

Jane Ferreira, que foi assistente do projeto Estação Subúrbio e acompanhou a gravação do curta, se disse encantada em rever os adolescentes crescidos e, mesmo tímidos, curtindo o filme. Ao avaliar a presença do elenco no festival, ela afirmou: “Fazer o filme, assisti-lo pela primeira vez na Avante, em julho de 2022, e agora revê-lo no cinema é uma experiência importante para eles. Nos próximos dias, quando a ficha cair, eles vão perceber a dimensão dessa experiência”.

Produção

O curta foi dirigido por Urânia Munzanzu, por meio da parceria entre a Osc Avante e Acarajé Filmes – produtora independente e especializada em narrativas negras. Conforme Ana Marcilio, Urânia abraçou a proposta e, mesmo com poucos recursos, contribuiu para que o filme acontecesse.

Inteiramente feito e encenado pelas crianças, o curta reflete sobre os desafios das infâncias negras na luta pela garantia de direitos básicos, entre eles, o brincar. Desde a primeira cena no cajueiro até o minadouro, a meninada participou de tudo: escolha do tema, figurino, locações, escrita dos textos e confecção dos cartazes que ilustram a greve infantil.

“O cajueiro foi uma locação escolhida pelas crianças, porque representava um lugar de brincadeira que eles perderam, e o minadouro é um espaço de encantamento. Eles sempre nos pediam para ir a esse lugar. Então, o minadouro era para eles um lugar de desejo, sagrado, porque a água é sagrada”, pontuou Ana.

Joias de Oxum

O título do curta é uma menção direta à relação de Oxum com as crianças. Rainha das águas doces, orixá do amor, da fertilidade e da maternidade, “Oxum é a mãe, e as crianças são as joias, os amores de mamãe”, explicou Ana.

Do encontro entre brincadeira e fantasia, ficção e realidade, emerge da narrativa uma pergunta fundamental na luta antirracista, que sintetiza o argumento do curta e, ao mesmo tempo, provoca os espectadores: uma criança negra pode brincar?”

A resposta para essa pergunta veio de um menino negro, estudante de escola pública, durante a primeira exibição do filme no Cine Glauber Rocha. Do fundo da sala do cinema, para que todos ouvissem, o garoto exclamou aos gritos: Uma criança negra pode brincar! 

“As duas sessões que acompanhei me mostraram que fizemos uma linda caminhada. Estar no cinema com as crianças foi melhor ainda – uma conquista a mais: assegurar que elas estivessem nesse espaço que lhes é de direito, uma vez que, no Brasil, um país de privilégios para poucos, a construção dos direitos sempre passa pela luta”, concluiu Ana Marcilio, emocionada com a presença do elenco no festival e orgulhosa pela recepção do filme pelas plateias infantis.

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