
Mais de 4.200 processos judiciais envolvendo racismo foram abertos em 2026, segundo o Painel de Monitoramento Justiça Racial, cujas informações são extraídas da Base Nacional de Dados do Poder Judiciário (Datajud). Os registros podem indicar dois fatores complementares: aumento dos casos de racismo e ampliação do empoderamento e letramento racial para a população negra.
O número preocupa e exige ações contínuas de enfrentamento ao racismo, como o Diga não ao racismo e à intolerância religiosa, evento promovido pelo projeto Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho, em parceria com o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Nelson Mandela, vinculado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi).
A ação ocorreu no último 15 de julho, na praça do Sucuiú, em comemoração ao Julho das Pretas, com atividades sobre letramento racial durante todo o dia e acesso à exposição dos livros infantis da Biblioteca Maria Carolina de Jesus.
“Eu descobri o evento assim que eu saí da escola, e achei muito legal. Li vários livros, inclusive o meu livro favorito e que me inspirou foi Eu Amo Meu Black”, compartilhou Daniele, 10 anos.
“Nossa ação tem como objetivo oferecer à comunidade local rodas de conversa sobre letramento racial. Nós dialogamos sobre o vocabulário antirracista, sobre atitudes racistas e intolerância religiosa. Dessa vez, trouxemos também a biblioteca itinerante, para que as crianças pudessem conhecer uma pequena parte da literatura antirracista e se ver dentro das histórias”, explicou Nádia Cristina Xavier, bibliotecária da Sepromi.
Públicos
Para o público infantil, foram promovidas atividades como pinturas de personagens africanos – históricos e fictícios, contação de histórias e rodas de conversa. Wallace, 7 anos, ficou bastante atento e se identificou com uma das situações abordadas no diálogo mediado pela equipe da Sepromi. Em relato para esta matéria, Walace compartilhou que alguns colegas da escola já implicaram com seu cabelo. Entretanto, o menino que participou do evento pela segunda vez, estava preparado – “eu falei pra mãe deles”, contou timidamente.
Participante do projeto Foco nas Infâncias, Walace se divertiu com as atividades de pintura e teve a oportunidade de pintar, pela primeira vez, o personagem Pantera Negra. Walace tanto curtiu a pintura que tirou a chuteira da mochila para ceder espaço para o desenho, “vou terminar de pintar em casa”, disse ele, e voltou com o grupo de colegas para o futebol.
Para Ágatha, 10 anos, o evento foi maravilhoso. A pequena leitora disse ter se identificado com a história do livro Eu Amo Meu Black e comentou que só não conseguiu ler outros livros pela manhã, pois “precisava voltar para casa depois da escola”. Ágatha, também participante do projeto Foco nas Infâncias, não resistiu e retornou no período da tarde para participar das atividades de pintura.
Os adultos não ficaram de fora, em especial, as mulheres. Muitas moradoras da Baixa do Tubo participaram das rodas de conversa, compartilhando suas experiências com o racismo, suas dores e estratégias para enfrentá-lo.
“Durante todo o dia recebemos diversos grupos de crianças, adolescentes e mulheres discutindo questões diversas relacionadas ao racismo: expressões racistas que utilizamos no cotidiano, violência obstétrica e sobre os direitos da criança e do adolescente, porque estamos na Semana do ECA. Nós tivemos um dia muito produtivo; acolhemos as pessoas para discutir esse tema tão sensível, que é a questão racial, e atrelando também ao Julho das Mulheres Negras, mês em que se comemora o Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha”, avaliou Joice Cristina, assistente social do Foco nas Infâncias.
Foco nas Infâncias: defesa de direitos na Baixa do Tubo do Coqueirinho é realizado pela OSC Avante, em parceria com a @KinderNotHilfe (KNH).



