
Quantos de nós estudaram sobre a participação dos povos ciganos na história do Brasil? O que sabemos sobre as suas origens, tradições e legado? De indesejados a invisibilizados, os povos ciganos seguem à margem, mesmo fazendo parte deste país há quase 500 anos.
A história oficial dos povos ciganos começa no Brasil com a chegada de uma família cigana deportada de Portugal durante o período colonial. Hoje, esses povos constituem cerca de um milhão da população brasileira, com maior concentração no Estado da Bahia.
Compelidos ao êxodo transcontinental, os povos ciganos foram submetidos ao nomadismo compulsório, em razão de perseguições históricas, sobretudo na Europa cristã, durante o nazismo alemão e também no Brasil, onde ainda enfrentam discriminação social.
Plurais em costumes, língua, tradições e etnias, os povos ciganos, mesmo não tendo produzido registros gráficos sobre si mesmos, são bons contadores de história e, talvez por isso, excelentes negociadores. Além disso, comunicam com beleza a identidade cigana por meio de diversas habilidades artísticas. Há indícios, inclusive, de que foram eles os responsáveis por trazer para o Brasil manifestações circenses como acrobacias e malabarismos.
Indesejados na Europa, esses povos de raízes indianas desembarcaram na cidade de Salvador como prisioneiros, mas com a bagagem abarrotada de arte, cultura e tradição – amuletos fundamentais para enfrentarem os desafios do exílio forçado.
Para conhecer melhor a história dos povos ciganos e entender as razões que ainda os invisibilizam, a Avante – Educação e Mobilização Social ouviu Jucelho Dantas da Cruz, cigano da etnia Calon, professor no curso de Agronomia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Jucelho Dantas é um importante nome do ativismo cigano na Bahia, com forte atuação no Conselho Estadual para a Sustentabilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais (CESPCT), órgão colegiado que integra a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia (SEPROMI).
Confira!
Avante: Qual a origem dos povos ciganos e como se configura a sua diversidade?
Jucelho: Nós somos um grupo heterogêneo, com origem na Índia. Algumas alegações explicam essa saída em direção à Europa, como perseguições muçulmanas e o não enquadramento entre as castas indianas. Depois, ao se espalharem por várias partes, originaram-se três grandes grupos étnicos ciganos: Rom, Sinti e Calon.
O grupo Rom é majoritário e mais distribuído pelo mundo. No Brasil, eles são o segundo em número de ciganos. Aqui no Brasil, o Calon, grupo ao qual eu pertenço, é predominante, principalmente no Nordeste, onde seguramente há um percentual em torno de 95%. O grupo Sinti é menor, o mais perseguido pelo regime nazista, portanto, mais prejudicado e minoritário no Brasil.
Cada grupo tem língua própria. Os Rom falam romani, os Calon falam shibi e os Sinti falam sintô. Todos com características muito particulares, mas também muitas em comum. Os Calons são mais afeitos à compra e venda de animais, cavalos, bois, enfim. Os Sinti têm uma ligação muito próxima com os circos. São circenses, artistas, e muito bons músicos. E os Rom têm uma diversidade muito grande, afeitos também à área artística.
Avante: Como se deu a chegada dos ciganos no Brasil e, mais especificamente, na Bahia?
Jucelho: Da Europa à América, a migração começa com a expansão territorial europeia. Nós, os ciganos Calons, que estávamos na Península Ibérica – Portugal, Espanha, Gibraltar – fomos os primeiros a chegar no Brasil Colônia, com registro oficial datado de 1574, com a deportação da família do cigano João Torres de Portugal. Há quem diga que antes deles já vinham outros ciganos, mas oficialmente eles são os primeiros.
A Bahia foi o ponto de origem. No bairro da Mouraria, em Salvador, e em Santo Antônio Além do Carmo, onde existem fortes, os ciganos eram colocados para servir de guardas ou até aprisionados, sob o olhar dos policiais ou dos infantes portugueses. Assim, foram chegando cada vez mais e mais ciganos. Então, começaram os processos de fuga para os sertões da Bahia e Recôncavo. Isso já foi perto de 1700. Desde então, os ciganos começaram a migrar para dentro do país até se espalharem por todo o Brasil.
[Santo Antônio Além do Carmo é um bairro histórico de Salvador, famoso por sua arquitetura colonial, com forte presença de igrejas e fortificações, como o Forte de Santo Antônio Além do Carmo, localizado no coração do bairro]
Os outros dois grupos étnicos, os Rons e os Sinti, começaram a chegar próximo aos 1900. Com o início da Segunda Guerra Mundial, muitos ciganos fugiram com medo da perseguição nazista e vieram trabalhar nas lavouras brasileiras, não se identificando como ciganos para não serem mandados de volta. Na época de Getúlio Vargas, inclusive, foram criados dois decretos que proibiam expressamente o desembarque de ciganos.
Desse estabelecimento inicial aqui no Brasil até a década de oitenta, mais ou menos, os ciganos eram maciçamente nômades, porque os donos dos territórios onde os ciganos acampavam, não permitiam a estadia, não restando aos ciganos senão outro ramo que não fosse o comércio, porque a vida os impunha esse nomadismo compulsório. Daí também a dificuldade de pôr filho para estudar, numa época onde nem os ricos aqui conseguiam que os seus filhos estudassem, somente a alta nobreza, que levava os filhos para a Europa. Mas, passada essa fase, mesmo assim, os ciganos não tiveram muito acesso à escola.
Avante: Quando começa então o acesso, ainda que mínimo, dos ciganos à escola?
Jucelho: A partir da década de oitenta, com o processo de sedentarização acentuada dos ciganos, o comércio de animais já não era o suficiente para a sobrevivência. Então, os ciganos se fixaram e começaram a comercializar outros tipos de mercadoria, como carros, terrenos, imóveis. A rotina comercial dos ciganos se alterou profundamente. Assim, o processo de sedentarização foi oportuno para a frequência dos ciganos nas escolas.
Da década de 1980 pra cá, no entanto, houve pouco avanço nesse sentido. A dificuldade ainda persiste, porque temos muitos elementos culturais que dificultam, principalmente os casamentos e atividades comerciais precoces. O jovem adquire responsabilidade muito cedo, consequentemente, para se manter, manter a família, prefere abandonar a escola e começar a trabalhar como comerciante.
Avante: A questão do gênero tem algum impacto no acesso ou permanência escolar para os ciganos?
Jucelho: A sociedade em que vivemos é majoritariamente machista, os ciganos também são, talvez até um machismo um pouco mais exacerbado. Então, para o homem tudo é permitido, para a mulher praticamente nada. É fato que isso tem diminuído, mas ainda precisamos avançar. Daí, os meninos ciganos frequentarem a escola por mais tempo do que as meninas. Muito embora, de forma controversa, atualmente, o número de ciganos em cursos universitários é de maioria feminina. Os homens não avançam muito e minha hipótese é: talvez os homens, por ter maior liberdade, começam a namorar, a adquirir bens… As meninas não negociam, não comercializam. Então os meninos começam a ter bens, e aí é o carro na mão, é o dinheiro, etc.
Então, a escola tem aquela coisa de ficar preso na cadeira para ter o aprendizado. E, se tem uma coisa que nós ciganos não abandonamos é esse desejo de estar livre. Por isso, a dificuldade também dos ciganos de permanecerem estudando. Além do tempo longo de estudo, o retorno financeiro não é tão rápido. Então, eles fazem essa análise e preferem ficar fora da escola. Aprender a ler e a escrever, portanto, para eles é o suficiente.
As meninas já não têm essa liberdade e, por isso, talvez, a persistência. Outro detalhe, a maioria das meninas que frequentam as escolas são fruto de casamentos mistos, de ciganos com não ciganos. Então, eu acho que tem uma questão materna que chega mais forte e retarda esse casamento para que as filhas possam estudar, diferente dos meninos que estão mais sob influência e domínio dos pais.
Avante: Você lembra de ter sido discriminado quando entrou na escola?
Jucelho: Meus pais fixaram residência em 1977, na Bahia. Foi quando comecei a estudar. Eu tinha sido alfabetizado em casa pelos outros irmãos que já sabiam alguma coisa. Quando entrei na escola, meus pais tinham chegado há pouco tempo em Ibirapitanga, mas como acampávamos com frequência nessa localidade as famílias de lá já nos conheciam. Meu pai era uma pessoa muito querida entre os não ciganos, então eu tive uma experiência diferente.
Quando fui para a escola, tinha muitos colegas que vinham, se aproximavam, queriam conhecer um pouco mais da cultura. Eu era uma espécie de líder da sala, todos gostavam muito de mim. Além disso, eu e meu irmão nos destacávamos pelas notas e pelo comportamento, então isso tornava o ambiente favorável. Os professores tratavam a gente muito bem mesmo. Até vencemos um prêmio de melhores alunos da sala, eu e meu irmão. O pessoal tinha uma admiração muito grande pela minha família e por nós, por isso, não tive dificuldade.
Avante: Quais são os principais preconceitos e discriminações vivenciadas pelos povos ciganos hoje?
Jucelho: De modo geral, as pessoas atribuem aos ciganos um instinto truculento, briguento, arruaceiro. Mas o que eu vejo é que esse é um comportamento presente em todos os eixos da sociedade. Então, nós temos pessoas que procedem bem e pessoas que procedem mal. O problema para nós ciganos é que, quando um procede mal, quem fez o mal foi o cigano, não foi o fulano de tal com identidade, RG. Além disso, dizem que o cigano não gosta de pagar e ainda existem lendas de que cigano rouba criança. Não tem cabimento. Inventaram essa história e até hoje ela está aí, propagada.
Avante: Os grupos ciganos foram reconhecidos como povos tradicionais em 2007. Em 2024, o governo federal lançou uma política nacional para povos ciganos. Como você avalia esse movimento?
Jucelho: O que conseguimos até agora foi fruto da nossa luta. Como mencionei, a partir da década de 80 ou 90, os ciganos começaram um processo intensivo de sedentarização. A partir daí, passaram a estudar, e os estudos abrem os horizontes. Nós começamos a nos enxergar como seres humanos, cidadãos de direito. Daí vieram os processos de reivindicação. Mas esse ativismo ainda era muito tímido até o ano 2000. A inclusão dos ciganos entre os povos tradicionais foi possível também graças aos outros segmentos de povos e comunidades tradicionais que, irmanamente, incluíram os ciganos.
Desde que começamos a estudar, o ativismo cigano vem crescendo. Então, até aqueles que não tinham formação acadêmica, começaram a entender que também precisavam ir à luta. Desde então, o ativismo fez com que buscássemos as autoridades. Em 2006, foi criado o Dia Nacional dos Ciganos, pelo presidente Lula, que foi uma alavanca importante para o crescimento do ativismo, pois, a partir dali os ciganos começaram a melhorar a autoestima e saber que eram capazes de lutar por algo.
Avante: E quanto à participação política e representatividade cigana?
Jucelho: A partir de 2006, a participação em conselhos impulsionou o crescimento dos ciganos no ativismo e, daí, a luta pelas políticas públicas.
Vamos às políticas públicas. Muito é prometido, como o decreto de primeiro de agosto de 2024, que diz que teria políticas públicas para os ciganos. Mas, qual foi implementada até agora? Nenhuma. Fizeram um mapeamento que não vai servir para espelho de nada, por conta da metodologia equivocada. Temos lutado! Conseguimos cotas para os ciganos em algumas universidades, como, por exemplo, a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), a do Estado da Bahia (UNEB), a Federal do Sul da Bahia (UFSB), e estamos na luta pela adesão da UFBA. Temos também cotas em alguns cursos de pós-graduação e estamos encampando uma luta para reservas de vagas para ciganos nos concursos públicos.
Aqui na UEFS, cada curso de graduação oferece uma vaga extra para ciganos, ou seja, são trinta e tantos cursos aqui. Teríamos condição de receber trinta e tantos ciganos por semestre ou por ano. Mas muito poucos acessaram até agora, porque poucos têm a formação de nível médio.
Avante: E a educação escolar para crianças ciganas, como você avalia a atuação do poder público?
Jucelho: Não vejo por parte do Estado uma preocupação muito grande com os ciganos. Muito embora os ciganos estejam incluídos lá. Eu faço parte, aqui na Bahia, do Conselho Estadual para a Sustentabilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais, junto à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia (SEPROMI), que é uma secretaria que não tem verba própria e muita autonomia. Então, não há condição de fazer muita coisa. Mesmo assim, para outros segmentos de povos e comunidades tradicionais, sempre tem algo acontecendo, mas para os ciganos, não.
Em relação à Educação Básica, não temos muito o que falar, porque não temos nenhuma política. Para os ciganos que estão numa idade tenra, frequentar escola é enfrentar preconceitos. Eu não enfrentei, mas a minha realidade era diferente. As criancinhas chegam na escola e não veem nada sobre ciganos. Ouvem falar de um mundo que não conhecem. Nós tentamos junto à Secretaria de Educação do Estado, mas até hoje nada foi concretizado, um material didático ou alguma coisa que, de alguma forma, remetesse aos povos ciganos. Mesmo que não haja ciganos na escola, é importante que todos os estudantes acessem um conhecimento positivo sobre esses povos.
Avante: Quais pautas a luta cigana na Bahia tem engajado nesse momento?
Jucelho: Estou cobrando insistentemente do governo da Bahia a inclusão dos ciganos nas políticas de reservas de vagas para concursos públicos. Há uma promessa, mas nada sai do papel. Então, tudo isso desilude e desmobiliza a participação política dos ciganos. Nós reivindicamos também ao governo estadual e ao federal uma política de publicidade que apresentasse um pouco da realidade do povo cigano. Uma propaganda ou algo que, dentro do contexto de povos e comunidades tradicionais, abordasse também os ciganos, para que a sociedade possa mudar esse olhar tão enviesado.
Avante: O que você nos diz sobre a invisibilidade das narrativas ciganas e seus autores?
Jucelho: Temos algumas literaturas interessantes disponíveis na internet, muitas dissertações de mestrado, trabalhos de conclusão de cursos, teses de doutorado, livros que são escritos por ciganólogos e ciganos, que têm muitas informações que vocês precisam conhecer para, a partir daí, formar sua imagem sobre o povo cigano. Nós não somos uma religião, somos povos. Quanto mais conhecimento houver sobre nós, maior será a identificação.



