Compartilhando sabedoria pela primeira infância em Fórum Mundial

Incansável militante pelos direitos da Primeira Infância, Bonnie Neugebauer, fundadora da World Forum Fundation ao lado de seu companheiro Roger Neugebauer, lançou uma nova ideia e a apresentou no World Forum on Early  Care and Education (WoFo) esse ano (2024), no Canadá – a Early Childhood Wisdom Initiative [Iniciativa de Sabedoria pela Primeira Infância], e promoveu uma mesa com mesmo nome no evento.

A ideia, já em prática, foi criada para reunir pessoas que trazem histórias de luta gravadas na experiência acumulada pelo tempo de vida, e ainda se mantêm firmes na militância em defesa pelos direitos da criança. Maria Thereza Marcilio, presidente da Avante – Educação e Mobilização Social, que em sua primeira palestra no Fórum Mundial sobre os avanços na estrutura jurídica brasileira em relação aos direitos da criança, mobilizou a plateia com frases como: “We can’t ever rest” [nós não podemos descansar jamais] integra o grupo proposto por Bonnie e formou a mesa de debates.

“A ideia é que a gente possa contar nossas histórias para inspirar outras pessoas, óbvio que isso pode crescer”, conta Maria Thereza. O grupo se reuniu diversas vezes antes do evento para planejar o seu funcionamento. Na mesa organizada no World Forum os integrantes compartilharam suas histórias.

“Fizemos um encontro mais informal, mais aconchegante, numa sala menor, com todo mundo sentadinho em mesas e cada um falou”, contou Maria Thereza. Inspirada, ela compartilhou algumas dessas histórias. Contou, por exemplo, a trajetória de Alan Pence, professor, que começou na Educação Infantil e hoje é professor de Universidade. Falou de Patsi Pillar, uma indiana que mora na África do Sul e militou contra o Apartheid, foi presa quando jovem e se dedicou à defesa da primeira infância.

Maria Thereza também escutou ativamente a fala de uma senhora da Moldávia, ex república da União Soviética, um lugar muito fechado, com pouco contato com o mundo e o impacto que sentiu ao sair de lá e começar a enxergar as coisas de forma diferente, entender que podia questionar, discutir e caminhar em busca da transformação.  

Maria Thereza, conta essas histórias empolgada e recarregada com as novas experiências do mundo. Ao chegar sua vez, a presidente da Avante narrou sua história de militância que, junto com as demais, serão organizadas pela equipe que integra a Early Childhood Wisdom Initiative para inspirar as novas gerações a continuarem, incansáveis, na luta pelos direitos pela primeira infância.

Maria Thereza – uma história

Ser ativista e guardião da primeira infância e comprometer-se na luta pela efetivação dos direitos das crianças exige consciência permanente, ação social, conhecimento e capacidade de aproximação entre diferentes parceiros. Para dar vida a esta afirmação, peço permissão para compartilhar um pouco da minha história.

O meu compromisso com a causa data do início dos anos setenta. Tudo começou com conhecimentos teóricos – um Mestrado em Educação focado no desenvolvimento da primeira infância – combinado com minha experiência pessoal de ter um bebê recém-nascido e ser mãe de primeira viagem. O deslumbramento que senti com a fragilidade e a força daquele bebezinho, sendo uma estudante de pós-graduação em terra estrangeira, em contato com todos os questionamentos trazidos pelos autores que vinha lendo e pelos professores, foram o gatilho para definir minha trajetória profissional e a decisão de ser ativista.

A Primeira Infância não é apenas uma demanda da família. É um tema crucial para a sociedade, para o governo e para as políticas públicas. A minha primeira ação foi participar de um movimento organizado por estudantes da Harvard Graduate School of Education exigindo uma creche para filhos de alunos, professores e funcionários. Depois de muitas reuniões, conversas e negociações conseguimos um porão de um dos prédios da Universidade e, de forma coletiva, limpamos, conseguimos equipamentos e móveis, e contratamos um professor profissional para administrá-la. Foi uma experiência comunitária linda, e Daniel, meu filho de 15 meses, à época, fez parte do grupo.

A partir daí desenvolvi diversas atividades, em diversos lugares, sendo professora de Educação Infantil e professora universitária, o que significou capacitação, aprendizado, compartilhamento e busca de parceiros. Houve também muitas oportunidades de trabalhar para órgãos governamentais, tanto em nível local quanto federal, com o desenvolvimento de políticas públicas para o cuidado e a educação da primeira infância.

Em abril de 1987, Ulysses Guimarães, presidente eleito do Congresso Brasileiro, convidou a população a participar da Assembleia Constituinte e a sugerir emendas. Este foi, então, o início de um dos mais belos capítulos da história do Brasil: grupos da sociedade civil e movimentos sociais começaram a se articular e a discutir o que deveria constar na Constituição. Havia uma nova atmosfera de democracia e as pessoas estavam a apropriar-se do sentimento incomparável de liberdade, participação e poder popular.

Eram mulheres, agricultores, trabalhadores, religiosos, povos indígenas e crianças ocupando diariamente espaços no Congresso Nacional. Até então, a legislação brasileira, em geral, focava apenas nas crianças e adolescentes em contexto de vulnerabilidade social, com forte viés punitivo. Aproveitando o momento, as organizações de crianças iniciaram um apelo em toda a sociedade pela “Emenda das Crianças, Prioridade Nacional”. E assim, crianças e adolescentes tomaram conta do Congresso Nacional para entregar mais de um milhão de assinaturas. Os legisladores constituintes, respondentes, aprovaram por unanimidade o artigo 227.

“É dever da família, da sociedade e do Estado garantir que as crianças, adolescentes e jovens, com absoluta prioridade, tenham direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, liberdade e vida familiar e comunitária, bem como protegê-los de todas as formas de negligência, exploração, violência, crueldade e opressão”.

Este momento coincidiu com a decisão de deixar o serviço público e junto a um grupo de mulheres, criar uma organização social que se constituiu como uma associação e que celebra neste mês de maio, 28 anos de existência.

A partir daí, a necessidade de agir, de monitorar permanentemente se as ,políticas públicas são efetivamente implementadas, de dar voz às crianças, resultou também na necessidade de articular redes, de construir espaços coletivos, de integrar esses espaços a exemplo de ; Fórum Baiano de Educação Infantil, Rede Latino Americana de Alfabetização, Rede Nacional Primeira Infância – da qual fomos eleitos para a Secretaria Executiva 2011-2012. A Coalizão Brasileira pelo fim da Violência contra Crianças e Adolescentes, a Coalizão Brasileira pela Educação Inclusiva, o World Forum on Early Care and Education, o Centro de Referência de Educação Integral, a Campanha Nacional pela Educação de Qualidade,  sem falar nos projetos desenvolvidos na nossa organização, Avante-Educação e Mobilização Social, que tem como missão a defesa dos direitos das crianças, dos jovens e das mulheres.

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