
“A gente saía todo dia, de manhã cedo, para catar livro em todo lugar. E eu falava para os outros jovens que a gente tinha poder para conseguir uma biblioteca na nossa comunidade. Naquela época, eu tinha 22 anos. Hoje, com 42 anos e pai de dois adolescentes, eu estou aqui como um líder comunitário do Calabar, graças à Biblioteca”.
No dia 22 de abril, 20 anos depois, Jorge Alves Barbosa Filho se juntou a vários outros personagens da história da Biblioteca Comunitária do Calabar (BCC), para celebrar o aniversário deste espaço que se tornou importante referência para a comunidade e um memorial de luta para as novas gerações.
Durante a festa, como mães e pais orgulhosos, os idealizadores da Biblioteca compartilharam, com brilho e lágrimas nos olhos, os desafios e conquistas que ajudam a contar as duas décadas de existência e resistência do equipamento cultural do Calabar.
Entre aqueles que sonharam esse sonho e participaram do evento celebrativo estavam: Fátima Gavião e Justina Santana – lideranças comunitárias do Calabar; Yuri Woxi e Jorge Alves – participantes do projeto Consórcio Social da Juventude, em 2005; e a Avante – Educação e Mobilização Social, instituição âncora do Consórcio e parceira e atuante nos projetos sociais vigentes no Calabar, à época.
Dos que foram chegando para contribuir e consolidar essa conquista e que também rememoraram momentos importantes dessa história estavam: Tereza Cristina Soares, cofundadora da Associação Mulheres do Calabar; Mianga Gavião, conselheira tutelar; Valdeck Almeida, jornalista e escritor, que ministrou oficinas de poesia nos primeiros anos da BCC; Alana Oliveira e Cristiana Pires de Souza (Titica), recém-chegadas para somar às atividades da Biblioteca.
Mesmo numa tarde chuvosa de quarta-feira, muitos convidados, entre eles, Maria Mariguella – presidenta da Fundação Nacional de Artes – Funarte -, e membros da comunidade – crianças, adultos, idosos, representantes da rede de saúde local – compareceram para prestigiar o evento que, além do importante encontro intergeracional, teve também apresentações artísticas, homenagens e bolo de festa.
“Estar aqui comemorando os 20 anos da Biblioteca é um privilégio. Num dia de chuva, depois de enfrentar um trânsito horrível, chegar aqui e encontrar as pessoas produzindo independentemente de chuva, de apagamento e de todas as apostas contrárias, é um privilégio. Quando a gente encontra lugares que estão mantendo a memória, mantendo os laços afetivos, a construção de novas possibilidades, o que a gente puder fazer, a gente deve fazer”, enfatizou Valdeck Almeida.
Tereza Cristina também reforçou a potência dos vínculos e afetividades para o sucesso do movimento.
“Três palavras resumem esses 20 anos: Resistência, união e sonho. Eu tenho orgulho de fazer parte dessa história. A gente precisa de parceiros e parceiras, gente em quem confiar e acreditar. Isso é fundamental para um trabalho que chegou a 20 anos”, expressou.
História
A Biblioteca Comunitária do Calabar nasceu de um sonho coletivo: ter na comunidade um lugar dedicado à leitura, mas que pudesse ser também um ponto de cultura para abrigar as diversas expressões artísticas locais.
“Tudo começou com o Consórcio Social da Juventude. A Avante foi a instituição que conduziu esse processo. Através das orientações dos professores e da Avante, que foi quem fortaleceu isso, nós temos hoje a Biblioteca Comunitária do Calabar”, declarou Justina Santana.
O Consórcio Social da Juventude integrava um programa do Ministério do Trabalho Emprego e Renda (MTE), que previa ações voluntárias dos participantes. A Osc Avante, instituição âncora do programa, apoiava os jovens moradores da comunidade do Calabar na realização desse trabalho voluntário por meio do projeto Jovens em Ação (2005).
Yuri Woxi, coreógrafo, formado em Dança pela UFBA, foi um dos jovens que participaram do Consórcio e do Jovens em Ação. Cerimonialista da festa de aniversário da Biblioteca, o coreógrafo relembrou detalhes da história que ele segue ajudando a construir.
“Aqui era uma saboaria, um espaço que estava abandonado. Na época, a Associação Comunitária nos cedeu esse espaço. E a gente sonhava muito. Queríamos rádio, escola, asfalto, biblioteca. Até que a nossa coordenadora [do Jovens em Ação] falou: ‘Pensem no que vocês podem realizar agora’. Então, conseguimos uma parceria com um grupo de canadenses, que nos ajudou com a reforma do espaço. Se não fosse por Justina, eu não conheceria o Consórcio Social da Juventude e não seria esse homem de respeito, culto, formado, que constrói arte nesse espaço”, declarou Yuri.
Conheça o Consórcio Social da Juventude e oJovens em Ação.
Fátima Gavião, líder comunitária do Calabar naquele período, complementou o relato de Yuri: “Eu conheci esses meninos quando estive na presidência da entidade. Yuri era jovem. Lembro que ele falou: ‘A gente quer andar só com a juventude’, mas eu sou teimosa, ficava tentando o tempo todo dar uma contribuição. Porque não adianta presidir uma associação de moradores e não fazer alguma coisa para mudar, e eu queria ver minha comunidade transformada. E aí, veio a Biblioteca. A gente conseguiu fazer o projeto, porque a associação tinha que assinar pelo espaço – e os meninos começaram a realizar seus planos”, compartilhou.
Em seus agradecimentos, Justina Santana mencionou o projeto EMredando Leituras, de 2008. A EMredando fomentou uma rede que integrou as Bibliotecas: Comunitária do Calabar (Calabar), Paulo Freire (Escada), Sete de Abril (Sete de Abril), Ítalo (Cajazeiras IV), Maria Rita Almeida de Andrade (Cidade Nova), Clementina de Jesus (Uruguai) e Ilha Amarela (Ilha Amarela), por meio de parceria entre a Avante e o Instituto C&A.
Valdeck Almeida de Jesus conheceu a Biblioteca quando o EMredando já estava em atividade, há 18 anos. O escritor e poeta, que buscou o espaço da comunidade para contribuir com apoio afetivo e literário, afirma que acabou “levando mais do que trouxe”. Ao integrar o EMredando Leituras, Valdeck ministrou oficinas de poesia com crianças, que resultou num livreto experimental, publicado com poucos recursos. Segundo o escritor, em 2012, ao conseguirem um edital, o livro foi atualizado com novos e novas poetas. “O livro cresceu, e a gente lançou aqui na Biblioteca e em outros espaços, inclusive, fora do país”, destacou.
Hoje
“Não é uma tarefa fácil manter uma instituição, mas vale a pena, principalmente quando se trabalha com a Educação e os livros. Hoje, manter uma biblioteca funcionando com as pessoas vindo até aqui está mais difícil, porque estamos concorrendo com a tecnologia e a digitalização dos livros. Mas quando começamos, esse espaço vivia cheio”, comentou Justina.
Como sonhada pelos seus idealizadores, a Biblioteca do Calabar não é um espaço somente das Letras e tem acompanhado com atenção as mudanças contemporâneas. “Aqui, a gente tem cursos de informática, capoeira, reuniões. Hoje, esse espaço é bem eclético, mas naquela época o foco principal era a leitura, a contação de história”, complementou Justina.
“Eu briguei muito, porque não queria uma biblioteca só para livros. Para mim, esse espaço tinha que ser um celeiro de cultura. Graças a Deus, a briga deu resultado. Agora, esse lugar agrega o grupo de mulheres, a capoeira, o boxe, a Associação da Roça – que vem fazer reunião aqui -, o posto de saúde, a escola, agrega o Ilê Axé de Alana, o grupo LGBT”, isso é o que define os nossos 20 anos”, reiterou Yuri Woxi.
Os depoimentos compartilhados na celebração evidenciam o tamanho do sonho e do compromisso das lideranças com as próximas gerações. É unânime e explícito o desejo de transformarem a comunidade num lugar de oportunidades e bem viver, por isso a Biblioteca congrega os diversos coletivos, associações e movimentos culturais e políticos do Calabar, a despeito das negligências estatais e das percepções reducionistas e classistas da sociedade soteropolitana.
“Essa Biblioteca é uma referência e pode contar uma outra história sobre o Calabar. A gente gostaria que a imprensa também estivesse aqui para cobrir esse evento, prestigiar, fortalecer e dar oportunidade de o mundo conhecer esse trabalho. Mas infelizmente eles só vêm quando acontecem outras coisas. Então, que cada um de vocês seja essa ponte, essa pessoa que fala da referência e que faz a luta ter sentido”, ressaltou Tereza Cristina ao concluir o seu depoimento.



