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Quando se muda o olhar para a criança, florescem novas infâncias

A ideia de criança como alguém que “ainda será”, permanece comum nos discursos e práticas de instituições de Educação Infantil, onde muitas vezes os educadores querem controlar a experiência infantil. Na contramão a essa concepção de infância, o programa Paralapracá vem provocando as redes parceiras para um novo olhar sobre essa fase da vida, como relata uma das diretoras pedagógicas do município de Natal (RN), no relatório de avaliação externa do Programa, elaborado pela Move Social. “O Programa contribuiu para desacomodar, sensibilizar a professora, a olhar para a criança e para a sua prática. O município era um, e com o Paralapracá veio a mudança, foi incrível! Na prática, foi melhor do que na fala”.
O Paralapracá propõe o reconhecimento da criança como uma pessoa em desenvolvimento, criativa e com habilidades múltiplas. Por isso, tem como princípio práticas pedagógicas que promovam o desenvolvimento da autonomia das crianças e, para tanto, defende que as instituições de Educação Infantil sejam espaços de qualidade, ou seja, equitativos, plurais e acolhedores. Espaços nos quais as crianças possam contar com a educação e o cuidado apropriados à sua faixa etária, e em que seja respeitada a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.
“Quando você vê um projeto que se preocupa com o ambiente, que é vital, que ajuda a pensar em uma sala onde as crianças gostem de estar lá, isso é maravilhoso”, relata uma professora olindense. “As minhas colegas dizem que operei verdadeiro milagre na minha sala. Em 18 metros quadrados, consegui organizar os cantinhos do brinquedo, da fantasia, dos recicláveis, e isso deu ideias para outras professoras. Consegui traduzir para a prática toda a teoria”, reforça outra professora do mesmo município.
Todas as falas foram registradas no relatório de avaliação externa apresentado pela Move Social, que também identificou uma troca de experiências crescente entre as instituições. “Já recebemos visitas de vários CMEI [Centros Municipais de Educação Infantil] para troca de experiências. Há apropriação da prática”, ressalta uma das diretoras pedagógicas de Natal, para o relatório da Move Social.
Escutando as crianças
As Redes parceiras do Paralapracá também ressaltaram a escuta das crianças como uma provocação do Programa, como relataram as coordenadoras de Camaçari (BA) para o relatório da Move Social. “A professora vai para sala de aula e lá, fazendo escuta sensível das crianças descobre qual o tema da turma. Certa vez, uma criança perguntou por que quando a gente anda, a lua anda com a gente. Outro disse que quando vê o foguete passar, a lua fica parada. Outra disse que a lua a seguiu quando ela foi para a igreja. A professora perguntou: o que acham de estudarmos a lua? E nasceu o Projeto Lua. Naquele momento, Elisângela [Oliveira, coordenadora da Escola Municipal Emaús] já fazia as formações do Paralapracá, e trazia esse olhar para a escola”, disseram.
Paralapracá
O relatório apresentado pela Move Social foi referente aos resultados alcançados até 2016. A instituição é responsável pela avaliação externa do Paralapracá, uma frente de trabalho do programa Educação Infantil do Instituto C&A, realizado a partir do estabelecimento de alianças com Secretarias Municipais de Educação, selecionadas para participar da iniciativa por meio de edital e implementado em parceria técnica com a Avante – Educação e Mobilização Social.
O programa possui dois âmbitos de atuação: a formação continuada de profissionais de Educação Infantil e o acesso a materiais de uso pedagógico de qualidade, tanto para crianças quanto para professores. Integraram-se ao primeiro ciclo do programa os municípios de: Jaboatão dos Guararapes (PE), Caucaia (CE), Feira de Santana (BA), Teresina (PI) e Campina Grande (PB). Neste segundo ciclo, que corresponde ao período de 2013 a 2017, cinco municípios integram o projeto: Camaçari (BA), Maceió (AL), Maracanaú (CE), Natal (RN) e Olinda (PE).
Em 2017, o foco do programa será o fortalecimento da gestão das políticas públicas municipais de Educação Infantil, juntamente com a promoção da sustentabilidade do processo formativo inspirado no Paralapracá nas redes municipais parceiras.