
Na natureza, todos os organismos têm a sua forma de contribuir para o equilíbrio do ecossistema. “A planta de raiz mais funda, que prepara o solo, tem a mesma importância daquela outra que é rasteirinha, que protege e impede os nutrientes desse solo de serem levados pela chuva”.
Assim como uma floresta, a escola pode ser um ecossistema cujo “ambiente proporciona o desenvolvimento da vida”. Essa compreensão, disruptiva e decolonial, desenvolvida por Maria Antônia Goulart, diretora do Centro de Referência em Educação Inclusiva do SESC- Senac (RJ), que atua há cerca de 20 anos com Educação e formação, amplia as nossas possibilidades para pensar a escola.
No anseio de reflorestar a nossa perspectiva sobre a educação escolar, Maria Antônia, também ativista dos direitos das pessoas com deficiência, nos convida a olhar para a biodiversidade brasileira e tomá-la como horizonte para o desenvolvimento de um ecossistema escolar decolonial, portanto, territorializado, diverso e abundante.
A Escola como Floresta: Revolução das plantas para pensar a escola inclusiva, publicado em 2025, primeiro livro de Maria Antônia, nos apresenta um parâmetro que identifica no ecossistema florestal o potencial para a construção de uma escola pautada na cooperação e colaboração, onde os sujeitos não são classificados ou hierarquizados a partir de padrões sociais colonizados. Um lugar onde todas as contribuições são importantes, porque compõem um organismo vivo e coletivo, como uma floresta.
Ao ouvir Maria Antônia somos impulsionados a questionar: o que justificaria um país como o Brasil, composto por seis biomas continentais e ecossistemas costeiros e marinhos, buscar exemplos de Educação fora do país e importar modelos prontos, inadaptáveis e incomunicáveis às suas populações?
Nessa série de diálogos estabelecidos com Maria Antônia, temos a oportunidade de vislumbrar outras formas de refletir sobre o ambiente escolar, de enfrentar os desafios para a promoção de uma Educação inclusiva e de questionar as estruturas coloniais que ainda sustentam a Educação brasileira.
Confira!
Avante: O que é a escola como floresta, ideia que intitula o seu livro?
Maria Antônia: A escola como floresta é a escola inclusiva. Quando você olha para uma floresta e vê duas plantas, às vezes uma enorme e uma outra pequena, mas cada uma está na sua possibilidade máxima como a planta que é, ninguém questiona isso… Mas quando a gente olha para as nossas escolas, a gente vê o contrário.
Se você vê uma criança que não está se desenvolvendo como as outras em uma área específica do conhecimento, a gente rotula que ela não deveria estar ali, que é ruim para escola e para ela. A gente não questiona, “mas será que ela não tá na plenitude dela, da possibilidade dela em relação a esse conhecimento?” E se ela está, está ótimo para todo mundo. Porque nunca ninguém aprende as mesmas coisas ao mesmo tempo. A gente cria alguns instrumentos que nos dão falsas ideias de que todos os estudantes estão aprendendo a mesma coisa. Não estão! Porque o nível de interesse vai motivar a atenção, o engajamento.
Isso varia porque as pessoas se interessam por coisas diferentes e têm experiências diferentes no mundo. Então, essa ideia de que todo mundo tá aprendendo a mesma coisa, é errada de partida. Mas quando a gente tem um aluno com deficiência numa turma, isso fica mais flagrante. Porque muitas vezes ele vai ter uma dificuldade maior com determinadas coisas que os outros estudantes que, ainda que não estejam aprendendo muito bem, conseguem fazer uma prova, dando uma impressão de que aprenderam, mas, muitas vezes, apenas decoraram as informações, então, não é um conhecimento que foi, de fato, produzido.
E aí a gente vai definindo como conhecimentos prévios o que não é. No ano seguinte, considera-se isso como um conhecimento já consolidado e traz um outro que vai se assentar sobre ele e aí você vai produzindo uma desigualdade ainda maior e criando uma ideia de que realmente as crianças com deficiência não servem para estar na escola, que elas não aprendem as mesmas coisas no mesmo tempo, como se isso fosse um problema delas e não uma falha na forma como a escola se organiza para atender a elas e aos demais. Então, elas deixam mais claro o problema que é da escola para todo mundo.
Quando a gente olha os indicadores de Educação do Brasil, os resultados das provas e exames, não são as crianças com deficiência que estão aparecendo como aqueles que não estão aprendendo, são as crianças sem deficiência. Até porque a maioria das crianças com deficiência nem essas provas fazem. Então, a gente tem uma dificuldade grande no modelo hegemônico, da aula fundamentalmente expositiva e com proposta única para todos os alunos.
Avante: Qual a grande questão em torno da Educação especial no Brasil?
Maria Antônia: A gente faz muito no Brasil a discussão da Educação especial. Sempre olhando para especificidade, buscando o afastamento, a segregação. Arrumando e identificando motivos para que as crianças com deficiência não estejam na mesma sala, utilizando o mesmo material, tendo aula com os mesmos professores, e cada vez mais fortalecendo, por meio da Educação especial, a integração. Então, eles estão na mesma escola, mas não estão na mesma turma. Estão na mesma turma, mas não estão na mesma sala, estão numa sala apartada onde só tem pessoas com deficiência. Para justificar a segregação e a integração, a gente diz que as pessoas com deficiência são diferentes, mas diferentes somos todos.
Avante: Por onde começar para promover uma Educação escolar inclusiva?
Maria Antônia: A escola que não considera a deficiência como elemento de constituição do seu público escolar e, portanto, de definição das estratégias pedagógicas, da forma e organização escolar, é uma escola que está optando por um currículo não inclusivo. Porque não é uma surpresa que os estudantes não são todos iguais, que não aprendem do mesmo jeito e nos mesmos tempos.
A discussão da Educação inclusiva começa com o perfil dos estudantes. As formas como eles aprendem, todos, com e sem deficiência, são o insumo inicial que deve orientar todo o resto: estratégias pedagógicas, processos formativos, organização do espaço, materiais escolares, mobiliário, organização de tempos, espaços. A gente falha porque considera que todo mundo é igual.
Avante: Como o colonialismo incide sobre a estrutura da Educação escolar?
Maria Antônia: Uma das características do colonialismo muito forte nas escolas é a estrutura pensada para controlar e dominar. Essa estratégia de organização da escola favorece as estruturas de controle. Então, você define um espaço que é delimitado, que permite pouca movimentação de corpos, dando pouco espaço para outras expressividades. Você tem a hierarquização, professor em pé na frente, os alunos sentados à frente dele, o controle do tempo rígido com o toque do sinal. Quer dizer, você tem muitos elementos que compõem essa forma de organização da escola hegemônica que são claramente elementos de produção de controle. Esses mesmos elementos são encontrados em várias outras instituições, como hospitais psiquiátricos e penitenciárias.
Qualquer padrão que a gente estabelece para o que se espera que a criança esteja ou não apta a aprender, a desenvolver em determinada fase, está orientada por uma visão de mundo, para uma expectativa em relação ao outro. Quando a gente estabelece esses padrões e, principalmente, define de forma muito rígida, automaticamente, estabelecemos exclusão e controle. Quanto mais rígido é esse processo, mais violento ele é.
Não é por acaso que a gente tem um número tão grande de licença saúde dos professores hoje no Brasil. Isso é reflexo de uma violência muito grande que está na forma como essa instituição se estrutura. A gente tem hoje um crescimento de ansiedade, depressão, processos de adoecimento psíquico, e a gente tem que olhar com muita atenção para isso. Se a gente não questiona esse modelo de escola e pensa, e estabelece a possibilidade de que existam outros modelos que possam organizá-la, o problema permanece.
Então, é preciso coragem para desafiar [esse modelo de escola] e instituir novos padrões, mais flexíveis, diversificados, com mais espaço para a pluralidade, diversidade e possibilidades de existência.
Essa escola que a gente tem é reflexo da forma como o colonialismo atuou no nosso país, uma escola que se estrutura muito a partir dos mesmos processos de violência que marcaram todo o processo colonial, não só contra pessoas com deficiência, mas também contra elas, violências simbólicas, que trazem essa sensação de angústia.
Avante: Quais os aspectos infraestruturais necessários para uma sala de aula inclusiva?
Maria Antônia: A discussão sobre arquitetura escolar, ambiência, mobiliário, forma e organização, é central para a Educação inclusiva. E a gente discute pouco isso.
A gente discute muito se a biblioteca tem títulos em Braille, audiolivros, se há livros com representatividade, de pessoas que falam sobre temas da deficiência, ou que tenham personagens com deficiência. Se tem um pátio, se a quadra é coberta e permite fazer atividades variadas. Mas a sala de aula propriamente dita, em poucos casos é pensada e é lá que os alunos estão mais da metade do tempo. O primeiro espaço que a gente deveria priorizar para repensar é o da sala de aula, embora os outros também sejam importantes.
Então, tem uma provocação que a gente precisa fazer sobre a própria estruturação das escolas que é essa estrutura de celas. A gente nomeia como Educação inclusiva, mas a gente está falando de Educação especial.
A Educação inclusiva é a Educação que atende todos e cada um dos estudantes. É aquela que permite que todos os estudantes possam estar em igualdade de condições para desenvolver as suas aprendizagens. A Educação inclusiva só pode se estabelecer se a gente trabalhar como pressuposto primeiro a diversidade, e segundo o contexto.
Avante: Como você avalia a perspectiva da Educação Decolonial e onde ela encontra a Educação inclusiva?
Maria Antônia: O conhecimento é situado. As pessoas estão situadas. As pessoas carregam aquilo que são e que os seus territórios são. Então, ao olhar para esses sujeitos nas suas realidades, a gente percebe que aquilo que é mais importante, que mais nos conforma como seres humanos brasileiros, desse território tão amplo, é que a gente tem uma identidade de país, aquilo que nos constitui.
Então, se a gente não pensa a partir disso e aceita um modelo que veio de fora para dentro, pensado a partir de outros sujeitos, como é que essa escola vai funcionar para nós? Quando a gente pensa em Educação inclusiva para pessoas com deficiência, nessa escola onde as crianças com deficiência podem ser respeitadas e aprendendo, dentro das suas possibilidades, a gente pensa muito nos saberes ancestrais. Como as escolas indígenas se organizam? Porque elas se organizam a partir do território e do que existe nele: dos valores, das formas como essas comunidades se sentam em roda, produzem coisas, se sentam muito mais no chão do que em cadeira, trabalham com os elementos da natureza de diferentes formas, transformam esses elementos em outros, produzem. Então, acho que precisamos colocar isso em perspectiva, observar aquilo que realmente nos constitui e trazer isso para o centro do currículo escolar.
A discussão da escola decolonial, dessa necessidade que a gente precisa assumir de entender como a colonialidade estrutura nossa escola e nos afasta daquilo que a gente já tem, que é nosso, que é importante, porque está no chão que a gente pisa, está nos saberes das pessoas que vivem aqui, na nossa arte, na nossa cozinha. Esse entendimento precisa estar no centro do nosso processo. E aí a Educação inclusiva se beneficia disso, porque, por exemplo, muitas vezes eu vou ter uma criança, um estudante que, na diversidade das materialidades (cor, cheiro, textura, etc), vai conseguir se expressar melhor de uma outra forma.
Como povo brasileiro desse território tão diverso, precisamos nos apropriar das possibilidades que esse território tem, da forma como essa natureza vai permitir. As cores da terra refletem o quê? Os materiais dos quais essa terra se constitui, os processos físicos e geológicos que atuam ali, a diversidade dos materiais, como eles foram sendo transformados, como interagem com outros processos naturais ali naquele território. Isso tudo faz parte de um conhecimento que é nosso, porque estrutura esse território onde a gente está. Então, não aproveitar isso para, a partir daí, problematizar sobre rochas e minerais, sobre erosão, sobre todos esses aspectos que dizem respeito a como os territórios se organizam ao longo do tempo, é um desperdício.
Para uma pessoa, por exemplo, que tem uma deficiência intelectual ou que, por algum outro motivo, não tem um repertório grande sobre esse aspecto, a possibilidade de tratar de algo que ele está vendo, tocando, que ele consegue comparar por meio da relação do corpo dele com essas materialidades, objetos, espaços, é muito superior do que começar com uma abstração, falando de geologia a partir do Pico da Bandeira (ponto mais alto do Brasil). Um lugar que eu nunca fui, que talvez eu nunca vá e que eu tenho que imaginar com pouca capacidade de elaboração algo tão abstrato e distante de mim.
Quando a gente trabalha com aquilo que é saber nosso e que aparece com muita força nas escolas indígenas, quilombolas – que são mais estruturadas a partir de povos originários, elas têm muito mais possibilidade como espaço de aprendizagem, porque são mais conectadas com o que a gente é -, para a Educação inclusiva isso é fundamental.


