Avante

Infâncias Migrantes e Refugiadas – Acolher com arte e educação

As fraturas decorrentes da ruptura com o seu país, território, cultura, idioma, amigos e casa, são profundas e traumáticas, sobretudo para as crianças. Poder contar com redes de proteção e acolhimento ao cruzarem a linha de chegada é um importante curativo para o medo, o cansaço, as dores físicas e emocionais adquiridas ao longo dos processos migratórios – um alento para minimizar os impactos das violências que configuram o deslocamento forçado.

A migração compulsória é um fenômeno global e atinge, principalmente, indivíduos do Sul Global – África, América Latina, Caribe, Ásia e Oceania -, cujos países estão suscetíveis a graves crises políticas e econômicas, em função das marcas colonialistas do passado ou dos interesses imperialistas do presente.

Na última década, o Brasil registrou um aumento expressivo do fluxo de imigrantes internacionais. Segundo o Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra-2023), a Polícia Federal registrou 105.094 solicitações de residência em 2013. Dez anos depois, esse número chegou a 1,2 milhão. Salto numérico que vem acompanhado de dois novos sintomas: a intensificação da migração entre países do Sul – com destaque para haitianos, venezuelanos, colombianos e argentinos -, e o aumento da participação de mulheres e crianças nos fluxos migratórios.

Na Bahia, somente em 2024, mais de 2.500 pessoas foram registradas como migrantes, segundo a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH -BA). Essa realidade exige de governos e sociedade iniciativas de proteção, com atenção especial às crianças, já que, durante ou pós-migração, elas são as mais vulneráveis a riscos de tráfico humano, exploração sexual, detenções, abandono, fome, violências físicas e psicológicas.

Com o propósito de visibilizar e inspirar ações de acolhimento que utilizam a arte e a educação para estabelecer conexões com crianças e adolescentes migrantes e apoiá-las em seus processos de adaptação, a Avante – Educação e Mobilização indica o livro Infâncias migrantes e refugiadas: acolher com arte e educação, organizado por Luciana Hartmann.

A obra

O livro resulta de pesquisas, ações artísticas e colaborações multidisciplinares realizadas por membros da Rede Infâncias Protagonistas: Migração, Arte e Educação, com crianças e jovens imigrantes e refugiados no Brasil, em Portugal, na Colômbia e em Moçambique.

O livro é dividido em três seções. 

  • A primeira, Infâncias Migrantes e Refugiadas I: Travessias, Contextos, Histórias & Memórias (sete capítulos); 
  • a segunda, Infâncias Migrantes e Refugiadas II: Escola, Linguagens Artísticas e Outros Mundos Possíveis (dez capítulos); 
  • e a terceira parte, intitulada Infâncias Migrantes e Refugiadas III: Literatura, Tradução e Contação de Histórias, composta por sete textos que enfatizam as múltiplas linguagens faladas, escritas e desenhadas por crianças e adolescentes imigrantes.

O professor Jader Janer, que prefacia a obra, avisa de antemão: “Quem for andar por suas páginas irá encontrar muitas explanações, enredos de vidas suscitadas pelas fissuras do chão que geraram e geram movimentos de partidas. Mas o mais importante é que, em todos eles, está a força do acolhimento. São textos não de espera, algo tão presente na vida dos que migram, mas de chegadas e de possibilidade de permanência. E todos têm outro recorte em comum: falam de infâncias, de crianças que desde o nascimento têm suas vidas em tracejos por diversificados territórios (…). Vidas desmembradas em muitos estudos e que agora ganham estampa nesta obra”. (pág. 18). 

Tal estampa se desvela de imediato na abertura do livro, com o relato impactante de uma jovem venezuelana refugiada, que guarda memórias significativas do seu país. A menina conta sobre os desafios e aprendizados adquiridos na travessia que durou três meses, ora de carona em carona, ora a pé. Manuelys Del Valle não oculta os momentos de pavor e incerteza que assolaram seus pais, nem as dificuldades do irmão menor para acompanhar os passos da família. Sua história real retrata a “desesperación” de passar dias e noites andando por selvas e montanhas, com privação de sono e alimento. Um texto a ser apreciado com sensibilidade e coragem.

Os artigos, organizados em capítulos, compilam ações inspiradoras de recepção e acolhimento. Ações que podem servir como parâmetro para que órgãos públicos, instituições escolares, projetos sociais e comunidades estejam preparados para os iminentes movimentos de chegada e permanência. 

No livro, arte e educação funcionam essencialmente como casa, abraço e remédio – tudo o que uma criança desterritorializada precisa para aliviar o medo e as dores da ruptura violenta com as suas origens.

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