
Como incentivar a participação das famílias nos espaços escolares quando muitos pais, mães e outros responsáveis estão aprisionados a jornadas de trabalho extenuantes, empregos precarizados e condições financeiras limitadas? Quando não há tempo para acompanhar os filhos e sequer participar das reuniões escolares?
A realidade socioeconômica de muitos pais e responsáveis é um dos principais entraves para o fortalecimento de vínculos entre escola e família. Esse dado é apenas um dos achados da pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Engajamento Família, Escola e Comunidade na Educação, da qual a OSC Avante faz parte, vinculada ao Center for Universal Education at Brookings.
A pesquisa “Convivência escolar: famílias como parceiras no fortalecimento dos sistemas educacionais e das escolas do Brasil” foi realizada entre setembro de 2022 e agosto de 2024, em três municípios: Cruz (CE), Luziânia (GO) e Londrina (PR). O estudo foi elaborado em parceria com: Vozes da Educação, no Ceará e Paraná, e com a Avante – Educação e Mobilização Social, em Goiás.
A Avante foi convidada para participar da pesquisa em função da implementação da tecnologia Fortalecimento da Relação Família, Escola e Comunidade na rede municipal de ensino de Luziânia (GO), desenvolvida em parceria com o Itaú Social e a Secretaria Municipal de Educação. A iniciativa teve como propósito mobilizar e fortalecer a relação escola-família-comunidade, por meio de ações formativas, seminários, oficinas, mapeamento do perfil das famílias, da participação e do controle social na Rede Municipal de Educação.
De acordo com Fátima Beraldo, consultora associada da OSC Avante e coordenadora da tecnologia desenvolvida em escolas de Luziânia, “a integração da pesquisa às ações que já vinham sendo realizadas no município goiano favoreceu a produção de dados articulado às práticas de fortalecimento da relação entre famílias, escolas e comunidade”. Para ela, o comprometimento da Secretaria Municipal de Educação de Luziânia foi fator decisivo para o convite e realização da pesquisa.
Achados
A coleta e a análise dos dados da pesquisa Convivência Escolar possibilitaram a identificação de cinco achados sobre as causas do baixo engajamento da família com a escola, entre eles: as condições socioeconômicas das famílias; a carência de uma descrição clara nas leis educacionais sobre como efetivar essa participação familiar e a divergência entre a perspectiva das famílias e dos educadores sobre a definição de engajamento familiar, escolar e comunitário.
“Nós tínhamos a percepção de que os pais só gostariam de estar na escola para buscar resultados de aprendizagem. Durante as Rodas de Conversa, percebemos que não é isso. Os pais gostam de participar mais ativamente, querem ter voz e vez, têm sugestões a dar. Os diálogos permitiram que eles entendessem que, para nós, a presença deles é importante” compartilhou Amanda Cristina Rubim, professora da Rede Municipal de Luziânia.
Em concordância com a professora, Fátima Beraldo confirmou que, durante as escutas realizadas no município goiano, foi possível perceber que famílias e escolas “reconhecem a importância dessa relação e desejam ampliar as oportunidades de diálogo e colaboração. No entanto, o fortalecimento das parcerias depende não apenas de normas e diretrizes, mas da construção cotidiana de relações baseadas no respeito, na escuta e na corresponsabilidade”.
Recomendações
Além dos achados, que possibilitaram identificar as causas do distanciamento entre escolas e famílias, a pesquisa propõe recomendações práticas, com o delineamento de ações, atribuições e responsabilidades direcionadas a governos, redes, escolas, professores e familiares.
As recomendações estão centradas em estratégias como: engajamento inclusivo, para acolher os diferentes perfis familiares, especialmente os mais vulneráveis; fortalecimento da confiança entre famílias, educadores e estudantes – fundamental para o êxito e a sustentabilidade das parcerias e dos combinados; apoio aos educadores com os recursos necessários para desenvolver parcerias com as famílias e a garantia de ter, no espaço escolar, um profissional apto e designado a promover o engajamento de forma eficaz.
“As recomendações apresentadas são coerentes com os achados da pesquisa, pois não se limitam a apontar problemas, mas indicam caminhos concretos para sua superação”, declarou Fátima”.
No Brasil, as defasagens da relação família-escola-comunidade revelam a necessidade de atenção prioritária, sobretudo porque, de lados opostos, famílias e educadores não conseguem chegar a um lugar comum para construírem juntos a qualidade da educação e contribuírem para o desenvolvimento e as aprendizagens das crianças.
Um dos principais desafios para que escolas e famílias brasileiras compreendam os benefícios do fortalecimento desse vínculo, conforme Fátima Beraldo, “é o de superar concepções ainda restritas sobre o papel de cada uma no processo educativo”. A coordenadora das atividades em Luziânia considerou ainda como fundamental “que a escola assuma o papel de protagonista na construção dessa relação, em razão da formação e experiência de seus profissionais”, e ressaltou que, para enfrentar tais desafios, as instituições escolares precisam “compreender as diferentes realidades familiares, romper com práticas que, por vezes, culpabilizam as famílias pelo distanciamento e construir formas de participação mais inclusivas e significativas”.
A tecnologia “Fortalecimento da relação entre família, escola e comunidade (FRFEC)”, implementada em Luziânia de 2021 a 2024, teve como fundamento metodológico a pedagogia da escuta, subsidiada por referenciais sobre gestão democrática, níveis de participação, aprendizagem dialógica – por meio da reflexão sobre a prática pedagógica – e avaliação participativa.
“A experiência desenvolvida em Luziânia (GO), por meio da implementação da tecnologia educacional FRFEC, demonstrou que o investimento na formação continuada de gestores, coordenadores pedagógicos e professores pode transformar as formas de interação entre escola e famílias, fortalecendo o diálogo, a escuta e a corresponsabilidade pelos processos educativos”, destacou Fátima Beraldo.
O resultado das atividades, reflexões e vivências concebidas durante os quatro anos da tecnologia FRFEC em Luziânia foram sistematizadas na publicação A Criança no Centro: experiências na Educação Infantil e de fortalecimento da relação escola, família e comunidade, disponível no site da OSC Avante.
Os depoimentos, experiências e reflexões que compõem a publicação “evidenciam que iniciativas construídas de forma colaborativa, contextualizada e sustentada por processos formativos favorecem a criação de práticas mais democráticas e inclusivas. Elas mostram que o fortalecimento do vínculo entre escola, família e comunidade deixa de ser apenas um princípio orientador para constituir uma prática concreta, capaz de promover melhores condições para a aprendizagem, o desenvolvimento integral dos estudantes e a participação de todos os atores envolvidos”, concluiu Fátima Beraldo.

