
Nem toda adaptação pós-migração precisa ser difícil ou traumática. Embora os processos migratórios sejam, em sua maioria, decorrentes de situações – políticas, econômicas e sociais – insustentáveis, recomeçar ou experienciar uma temporada em outro país pode e deve ser diferente, sobretudo para as crianças pequenas.
A fim de minimizar os impactos culturais, linguísticos e relacionais que, em geral, acompanham a chegada a um novo lugar, muitas escolas e comunidades se apropriam da potência da cultura local como estratégia de acolhimento.
Quando a migração ocorre na primeira infância, os processos de adaptação escolar, foco desta entrevista, possuem peculiaridades importantes que, somadas às características do território de destino, favorecem uma integração mais tranquila. Quem nos ajuda a identificá-las e entendê-las é Rita Natividade, gestora da Escola Municipal João Lino, localizada no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador.
Ao construir um projeto político pedagógico dialogado com o seu território de identidade, a Escola João Lino – por meio das vivências culturais possibilitadas pelo Pelourinho – transformou-se num importante núcleo territorial da comunidade, facilitando a inclusão de estudantes estrangeiros.
A Avante – Educação e Mobilização Social conversou com Rita Natividade, a fim de ampliar a compreensão dos leitores sobre a importância do diálogo entre escola e território para o fortalecimento de pedagogias de acolhimento, em especial, para crianças migrantes.
*Os nomes das crianças mencionadas pela entrevistada foram substituídos para preservar as suas respectivas identidades.
Confira!
Avante: Quantas crianças migrantes vocês já receberam na escola?
Rita Natividade: Nós recebemos cinco crianças. O primeiro, João, chegou muito pequenininho e concluiu a Educação Infantil conosco. A mãe dele é uruguaia e o pai é brasileiro.
Recebemos também dois irmãos gêmeos da Argentina, Lucas e Mateus; Akin, também do Uruguai; e Maria, que veio dos Estados Unidos acompanhada da mãe, brasileira, que retornou ao Brasil a trabalho.
Maria e sua mãe passaram menos de 3 meses aqui, sendo necessária uma matrícula temporária. Essa criança, inclusive, não tinha certidão de nascimento no Brasil. A gente precisou mandar a documentação para a Secretaria de Educação, porque o que ela apresentava, mesmo tendo dupla nacionalidade, não era suficiente para preencher os dados no sistema.
Essa matrícula temporária foi uma oportunidade para a criança frequentar uma escola brasileira e de se aproximar da língua materna de sua mãe, mesmo falando muito bem o inglês e o português, porque a família teve esse cuidado nos Estados Unidos.
Akin também não ficou muito tempo. O garoto uruguaio ficou conosco cerca de 8 meses, em 2024, e no final do ano a mãe precisou regressar porque os vistos precisavam ser renovados.
Avante: Como foi a adaptação dessas crianças na escola?
Rita Natividade: O caso de João (Uruguai) é muito interessante, pela forma como ele abraçou a nossa cultura. Às vezes, ele parece mais soteropolitano e apaixonado pela cultura local do que as crianças nascidas aqui, que já naturalizaram essa diversidade e potência.
A mãe de João começou a participar de projetos sociais aqui no Pelourinho, se integrou em aulas de percussão e de dança afro. Começou a trabalhar no comércio local, e ele passou a participar de todos esses movimentos com a mãe. Hoje, ele é um artista mirim, destaque na banda de percussão pela competência que adquiriu como aprendente.
Para as famílias das nossas crianças, essa efervescência cultural do Pelourinho, que atrai turistas do mundo inteiro, é tão natural que não desperta tanta atenção, não vira tema de debate em casa. E não é que não seja valorizado, eu acredito que seja tão naturalizado, a ponto de não perpassar os diálogos familiares. E a nossa escola traz a cultura local, esse território de identidade, com muita força para o nosso projeto político-pedagógico.
E ele, João, como uma criança migrante, demonstra muito mais interesse e paixão pelas experimentações nas vivências escolares e dentro do território – com capoeira, percussão, nos museus, com escultura, pintura, música – do que as outras crianças. Ele é verdadeiramente apaixonado.
Eu acredito que essa paixão é influência da sua mãe, que chegou com essa curiosidade natural do imigrante, com olhar de turista, que foi descobrindo e se apropriando dessa cultura. É a minha hipótese. A paixão de João pela cultura local tem chamado muito a atenção de todos aqui da comunidade do Pelourinho, da escola e da família.
Avante: E como foi receber essas crianças que não falavam o português? A língua foi uma barreira em sala de aula?
Rita Natividade: João chegou aos 3 anos. Na época, ele não falava o português com fluência. Lembro que ele entrou no grupo 2. E aí entra uma questão interessante quanto ao idioma. Quando ele chega à nossa escola, inúmeras crianças do grupo 2 estavam migrando para o grupo 3. Então, ele e os demais colegas estavam descobrindo juntos uma nova fase.
Além disso, na Educação Infantil, as crianças ainda estão em fase de consolidação da linguagem. Nessa etapa, os diferentes níveis de oralidade se misturam na sala e a professora realiza um trabalho tão intensivo com experiências orais, como a roda, a participação coletiva, a escuta do nome, a construção do fortalecimento das identidades (quem sou eu sou, qual é o meu nome, todos vão falando), que essa barreira foi vencida muito rapidamente.
João chegou aos 3 anos e ficou com a gente até o final do ano letivo de 2025, que se encerrou agora em 2026, por conta da greve. Foi o ano de conclusão de João na Educação Infantil. Ele estudou conosco do grupo 2 até o grupo 5. Um tempo longo, cuja convivência e desenvolvimento com as demais crianças resolveu, de forma orgânica, qualquer questão de adaptação.
Já Akin (Uruguaio) teve uma passagem mais rápida e apresentou dificuldade na questão da comunicação, por conta da língua.
A linguagem no começo, realmente, trava um pouco, porque há dificuldade de entender o que a criança está sinalizando ou precisando. Mas, pelo fato de sermos uma escola de Educação Infantil e do trabalho de oralização ser muito intensivo nessa etapa, essas barreiras, segundo relato das nossas professoras, se diluem muito rapidamente.
Avante: Então a migração durante a primeira infância tem menos impactos negativos no quesito adaptação escolar?
Rita Natividade: As crianças não estranham e não rejeitam a presença de outras crianças. Elas quebram as barreiras da linguagem e das diferenças com muita tranquilidade. Vão se apropriando rapidamente dos costumes, das brincadeiras, da rotina, enfim, lidam com essa questão de uma forma tão natural e espontânea que acredito que, somente um adulto com um olhar já contaminado, perceberia as diferenças.
Isso me fez lembrar muito de Mandela, quando ele afirma que ninguém nasce odiando outra pessoa, nem pela cor da pele, nem pelo seu lugar de origem, muito menos pela religião. As pessoas são ensinadas a odiar. Então, que a gente também aproveite as oportunidades para ensinar a amar. E que lugar mais adequado para isso que uma escola?
Perante uma humanidade adoecida, que está sempre nos desafiando com guerras, conflitos e violências, que se agride por time de futebol, por disputa de território e bens naturais, ensinar as crianças a amar e a respeitar as diferenças na escola, e a partir dela, é uma necessidade.
A diversidade faz parte do cotidiano escolar e isso favorece o fazer pedagógico, porque nos dá a oportunidade de trabalhar conceitos muito importantes como eu, o outro e o nós. Nos dá oportunidade de consolidar identidades individuais e coletivas, origens, raças, credos, trajetórias, ritmos, subjetividades.
Avante: Houve dificuldade da própria escola, dos professores ou dos colegas no acolhimento das crianças migrantes?
Rita Natividade: Em termos de choque cultural, resistência, a gente não vivenciou, mas eu atribuo isso à localização da escola, que oportuniza a quebra dessas barreiras. Porque nós temos uma circulação intensa de pessoas de outros países aqui no centro histórico.
Eu acredito que as pessoas que migram para o Pelourinho, migram em busca de integração. Vou usar o exemplo da mãe de Akin. Ela veio para cá e estava trabalhando como artista de rua. Ela fazia estátua viva. Se pintava toda de prata, usava lençóis.
[As estátuas vivas ficam paradas e quando os transeuntes depositam algum dinheiro, alguma contribuição, a estátua se comunica e isso encanta as crianças].
Ela estava aqui passando uma temporada. E o Pelourinho, habituado ao turismo, ao receber o migrante – mesmo que para tentar a vida, de forma temporária ou permanente – não o recepciona com estranheza, porque é um território de muita troca entre os locais e os estrangeiros.
As professoras da escola confirmam a minha percepção: as crianças se adaptam com muita tranquilidade, aceitam as diferenças, absorvem novas culturas sem preconceito.
Avante: Vocês precisaram usar alguma estratégia para acolher essas cinco crianças?
Rita Natividade: Na Educação Infantil, independente do período que a criança entra, existe sempre a estratégia da adaptação, o período de análise diagnóstica. Se for no começo do ano letivo, todas as turmas estão em adaptação ou readaptação. Adaptação para quem tá entrando na escola, readaptação para a criança que foi do ano anterior e que está mudando de grupo.
Mas as crianças que chegam no decorrer do ano letivo também passam por esse processo de adaptação, de entrevista com as famílias, análise das particularidades, das individualidades, a anamnese – se tem alergia, se tem resistências, enfim, isso é feito com todas as crianças. O fato de recebermos uma criança migrante, nunca, até então, nos demandou um procedimento diferente daquele que nós já fazemos com todas as crianças. Obviamente que há um cuidado maior, uma atenção diferenciada para essa criança.
Avante: Quais foram os aprendizados e os ganhos de receber crianças de outros lugares?
Rita Natividade: Se tem algo que ganhamos com essas experiências e que nos fortalece é a certeza de que a escolha por trabalhar pedagogicamente o nosso território de identidade faz sentido. Porque se o mundo inteiro vem ao Pelourinho, se recebemos crianças fruto desse contexto de turismo, de interesse pela cultura soteropolitana, baiana, com marcas afro-brasileiras, que atrai o mundo todo, que encanta quem chega de fora, nossa maior aprendizagem é a confirmação de que devemos insistir na valorização deste território de identidade, dessa cultura local que nos diferencia do resto do mundo.
Perceber o quanto as crianças que vêm de fora e seus familiares se interessam e se encantam, também nos impulsiona a seguir usando como marca principal do nosso projeto político-pedagógico essa interação com o território.
Avante: Como você define pedagogias de acolhimento a partir da experiência vivida na Escola João Lino, considerando o território como parte desse processo?
Rita Natividade: A gente está falando de imigrantes, mas todas as diferenças fazem parte da ideia da pedagogia do acolhimento. As crianças neurodivergentes também nos desafiam muito nesse processo de acolhimento. As relações, elas se tornam mais interessantes com as diferenças. Isso amplia o nosso leque de debates, desperta interesse de conhecer o outro, de trocar experiências.
Considerando a diversidade humana, a pedagogia do acolhimento transforma o espaço escolar em um laboratório de convivência efetiva, pois oportuniza vivências, aprendizados, trocas; evidencia individualidades, jeitos de falar, línguas, tons de pele, texturas dos cabelos e isso potencializa o grupo. Favorece debates sobre respeito, tolerância, empatia; combate qualquer forma de rejeição, preconceito e exclusão.
Fazendo um recorte para a João Lino, que é uma escola que trabalha em articulação com o território de identidade Pelourinho, a presença de migrantes favorece a ampliação desses debates. Isso porque, existe o meu território, todas as riquezas do meu território, todas as interações sociais, todos os equipamentos culturais dentro do meu território. E existe o seu território, existem outros territórios. O que é que nós podemos explorar e conhecer de outros espaços, de outras culturas, de outras pessoas?
Enfim, os olhares se expandem e a gente vai tecendo essa rede de convivência, de trocas, com fios de cores e texturas completamente diferentes. Enxergar a diferença com leveza, com respeito, com curiosidade, é uma percepção que favorece demais a humanidade, as pessoas, as crianças.


