
No Brasil, enquanto os resultados de provas nacionais ganham os noticiários com palavras de efeito como defasagem, déficit e analfabetismo, muitos se apropriam desses discursos midiáticos para propor soluções imediatistas que ignoram realidades sociais e desrespeitam o tempo adequado para as aprendizagens. Tais proposições, além de encobrirem a negligência do Estado frente à raiz do problema, transformam-se em argumentos que visam deslegitimar as teorias latino-americanas que fundamentam nossas práticas de ensino.
À revelia do legado histórico de expropriação cultural e econômica, os países latino-americanos produziram pensadores como Paulo Freire (Brasil) e Emília Ferreiro (Argentina), cujas pesquisas estruturaram referenciais teóricos robustos e reconhecidos em todo o mundo.
Os problemas educacionais comuns à América Latina – entre eles os relativos à alfabetização – não decorrem, entretanto, da suposta fragilidade do conhecimento produzido na região, como julgam os seus opositores, mas sim de projetos políticos que, apoiados na precarização dos sistemas educacionais, persistem em acentuar desigualdades.
Para nos auxiliar a compreender os pormenores dessa conjuntura e projetar saídas para a equidade educacional, a Avante – Educação e Mobilização Social abriu um diálogo com Giovana Zen, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Rede Latino-americana de Alfabetização (REDALF), da qual a Avante faz parte.
A REDALF reúne pesquisadores e sujeitos da Educação Básica e do Ensino Superior para ampliar discussões sobre a perspectiva construtivista psicogenética, abordagem que enfatiza a construção do conhecimento pelo sujeito em sua relação com o mundo.
A seguir, confira a primeira parte desse diálogo!
Avante: A Redalf promoveu um encontro para os membros da Rede, em 30 de janeiro. Dessa reunião saíram proposições ou intenções que podem ser compartilhadas?
Giovana Zen: Nos dias 30 e 31 de janeiro, a diretoria e as comissões da RED se reuniram para planejar as ações de 2026. O primeiro dia foi dedicado à organização interna, incluindo a definição de prioridades e de estratégias. Já no segundo, o diálogo foi ampliado, reunindo representantes de universidades e organizações da sociedade civil que têm desempenhado um papel fundamental na manutenção e afirmação das epistemologias latino-americanas de alfabetização em nosso país, além de apoiar mais diretamente as ações da RED no Brasil desde o seu relançamento, em 2023.
Entre os principais encaminhamentos, destacam-se o início do processo de associação institucional à Rede e a criação de uma comissão voltada ao fortalecimento das estratégias de articulação regional. As decisões reafirmam objetivos centrais da RED, como congregar profissionais e instituições da América Latina envolvidos na pesquisa, na formação e na docência em alfabetização, além de promover intercâmbios com associações nacionais e internacionais. O encontro também reforçou o compromisso com a circulação do conhecimento produzido na região e com a análise crítica das políticas públicas de alfabetização.
Avante: Ao dialogar com representantes de outros países da América Latina, quais desafios e potencialidades você identifica como comuns a toda a região quando o assunto é alfabetização?
Giovana Zen: O diálogo com colegas de diferentes países da América Latina revela que apesar das especificidades nacionais, há um conjunto de desafios que atravessa toda a região e que está profundamente ligado à nossa história social e política.
Um primeiro ponto comum é a persistência de desigualdades estruturais que impactam diretamente as condições de escolarização das crianças. Em muitos países, a alfabetização acontece em contextos marcados por precariedade material, descontinuidade de políticas públicas e profundas assimetrias de acesso à cultura escrita. Isso faz com que o direito à alfabetização ainda seja, para muitas crianças, um direito formal, mas não plenamente realizado.
Outro desafio compartilhado é a crescente pressão por resultados mensuráveis, que vem acompanhada da expansão de avaliações padronizadas e da circulação de propostas pedagógicas simplificadoras. Em diferentes países, observamos um movimento semelhante: a tentativa de resolver um problema complexo por meio de soluções rápidas, muitas vezes descoladas do conhecimento produzido historicamente na região.
Mas, ao mesmo tempo, é justamente nesse ponto que emerge uma das maiores potencialidades latino-americanas. A região construiu, ao longo das últimas décadas, um campo sólido de investigações sobre alfabetização. Esse acúmulo não é apenas teórico, ele está profundamente articulado às práticas escolares e à formação docente.
Há também uma forte tradição de pensar a alfabetização como um direito cultural e político, e não apenas como uma habilidade técnica. Essa perspectiva, muito influenciada por autores latino-americanos, sustenta a ideia de que alfabetizar é inserir as crianças em práticas sociais de leitura e escrita que façam sentido em suas vidas e em seus contextos.
Por fim, destaco como potencialidade a própria existência de espaços de articulação como a Rede Latino-Americana de Alfabetização. Esses encontros permitem não apenas compartilhar experiências, mas produzir uma leitura coletiva da realidade, fortalecendo uma agenda comum e afirmando a importância de que as respostas para os nossos desafios também sejam construídas a partir do nosso próprio campo de conhecimento.
Avante: É possível promover equidade na alfabetização sem corrigir desigualdades sociais profundas?
Giovana Zen: É possível produzir avanços, mas não é possível falar em equidade plena sem enfrentar as desigualdades sociais que estruturam as condições de vida das crianças. A alfabetização não acontece em um vazio, ela se realiza em contextos concretos, atravessados por acesso (ou não) a bens culturais, condições materiais, estabilidade institucional e oportunidades de participação em práticas de linguagem.
Dito isso, a escola tem, sim, um papel fundamental e intransferível. Há evidências consistentes de que práticas pedagógicas qualificadas, intencionais e bem fundamentadas podem ampliar significativamente as oportunidades de aprendizagem, mesmo em contextos adversos.
Mas o problema surge quando se atribui à escola, isoladamente, a tarefa de corrigir desigualdades que são produzidas socialmente. Esse deslocamento é perigoso porque cria uma expectativa irreal sobre o alcance da ação pedagógica e, ao mesmo tempo, pode levar à culpabilização de professores e escolas pelos baixos resultados.
Promover equidade na alfabetização, portanto, exige uma dupla ação. De um lado, políticas educacionais consistentes, que invistam na formação docente, nas condições de trabalho e em propostas pedagógicas que reconheçam a diversidade dos processos de aprendizagem. De outro, políticas sociais mais amplas, que garantam condições dignas de vida, acesso à cultura escrita e estabilidade nas trajetórias escolares.
Em síntese, a escola pode e deve fazer muito. Mas ela não pode fazer tudo sozinha. Quando falamos em equidade na alfabetização, estamos necessariamente falando de um projeto de sociedade.

