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Explorar o mundo: uma ponte para aprendizados e direitos

Sair da Ocupação Quilombo do Paraíso pode significar mais que um passeio. Ao olhar de Tainá Cerqueira, 13 anos, integrante do projeto Estação Subúrbio – nos trilhos dos direitos (Avante e KNH), esses momentos são boas oportunidades de conhecer e aprender sobre o mundo, quem ela é e onde pode chegar. “O que mais aprendi foi que não é porque somos negros que temos que ficar sempre em último lugar, que nós também podemos ficar em primeiro”, disse. Levados pelo Projeto, 23 crianças e adolescentes, no dia 11 de dezembro conheceram o Memorial da Câmara dos Vereadores de Salvador, o gabinete do vereador Marcos Mendes (PSOL) e o zoológico da cidade.  A intenção de ações como essa, promovidas pelo Estação Subúrbio, é fomentar o sentimento de pertença e a consciência de seus direitos, entre eles o direito à cidade, à cultura, e ao lazer, garantidos no capítulo IV (artigos 53 ao 59) do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

No entanto, quando espaços de cultura e lazer não são assegurados pelo Estado, o acesso fica restrito e excludente, dificultando o exercício da cidadania. “A lógica do Projeto é também uma forma de resistir, de atuar pela proteção à infância, defesa dos Direitos Humanos e uma oportunidade de trabalhar a cidadania. É, também, uma forma de promover a alegria e ir contra ao que o sistema impõe a crianças ainda tão pequenas, que vivem uma realidade muito complexa”, afirmou Ana Cecília, assistente social do Estação Subúrbio.

Memorial

No Memorial da Câmara, primeiro lugar onde passaram, as crianças ouviram sobre a história de Salvador durante uma visita guiada. Conhecer a cidade em que vivem atraiu olhares atentos e compreensões maduras, ao passo em que ouviam sobre os fundadores, muitos estampados em quadros clássicos nas paredes do espaço, artefatos antigos, um calabouço onde, possivelmente, os escravizados ficavam presos. As crianças e adolescentes ali presentes ouviram sobre a cronologia da Câmara Municipal desde a primeira sede, de 1549, até a última, inaugurada em 1888, além da reforma de 1970. “Sempre que saio para algum lugar, aprendo mais. Por isso é bom sair, se expressar. Aprendi muitas coisas. Nem sabia que um monte de pessoas tinham existido”, afirmou Yasmin Vitoria, 11 anos.

Gabinete

Nessa ponte entre tempos, contextos e horizontes, os meninos e meninas, ao chegar ao gabinete do vereador Marcos Mendes, externaram a necessidade de falar sobre a própria realidade. “Achei bom falar no gabinete, porque avisamos o que está acontecendo. Perguntaram o que queremos que melhore, o que está ruim”, disse Luciele Alves, 12. “A minha escola está toda quebrada, cheia de rachadura, daqui a pouco cai. A UPA, mesmo a de Periperi, está muito cheia de gente doente nas camas, pelos corredores. Acho isso muito ruim. Não temos o privilégio de ter um lugar para jogar uma bola, pois se jogarmos bola cai na pista. O que adianta? Nem dá para brincar direito. Por isso, que gostei de falar, pois gosto de brincar, pois sou criança”, declarou Yasmin à equipe do vereador.

“É importante demarcar para esse espaço [gabinete de um vereador] que essas pessoas também têm direito de ocupar esse lugar e estar aqui. Foi importante ver o quanto as próprias crianças já sabem e entendem o que elas estão vivendo e sabem se posicionar em relação à essa realidade”, declarou Daniela Silva, assessora de Marcos Mendes que, dentro do gabinete, é a responsável pelos debates sobre direito das crianças e adolescentes.

Zoológico

Próxima parada: Zoológico. A atmosfera de reflexão das crianças e adolescentes continuou a mesma. Pela tarde, após ver os animais, durante o piquenique, as crianças relataram o clima de ansiedade que pairava sobre a Ocupação Quilombo do Paraíso nas semanas anteriores ao passeio. Kauane Santos, 11 anos, disse que o programa foi um momento de bem-estar e importante para lhes proporcionar acesso ao lazer. “Todos esses dias ficamos pensando em vir para cá, para virmos ao Zoológico, nos divertir e brincar, porque só aqui, andando por aí, que temos mais alegria”. “Achei muito bom falar no gabinete, também, mas eu gosto de brincar, gosto mesmo é de traquinagem, sou criança!”, declarou Yasmin. O sentimento que predominou no grupo foi muito bem expresso por Tauã Cerqueira, 15 anos, declarou no final do dia: “aprendemos mais sobre o mundo!”.

Estação Subúrbio

O Projeto atua na comunidade desde 2017, com permanência até 2020, levando o brincar como estratégia de redução da violência comunitária urbana, sobretudo de crianças e adolescentes, com ações que estimulem o envolvimento de atores da comunidade na defesa dos direitos, na colaboração para o desenvolvimento infantil, o cuidado com o ambiente comunitário, promovendo o sentimento de pertença e a qualidade nas relações interpessoais.